Girafas

A história é repleta de situações em que uma palavra costumava ter um sentido e, pelo uso popular, forçam-se novos significados e o original é esquecido ou cai em desuso.

Dizem que a primeira vez que o povo do Japão travou contato com uma girafa, eles chamaram o animal de “kirin”. A palavra soa familiar? Pois é, é exatamente a mesma que aquela marca de bebidas.

Só que “kirin”, originalmente, não é nem algum tipo de bebida e nem uma denominação de “girafa”. “Kirin” ou “qilin” ou “kylin” é um criatura originada na mitologia chinesa, uma espécie de dragão cuspidor de fogo que protege pessoas boas e não pode ser domado.

Se você reparar bem, o logotipo da marca Kirin leva uma versão desse animal esquisito. A imagem que abre este texto é de um Kirin. Agora me diga, ele parece uma girafa? Eu, pelo menos, não consigo ver muita semelhança (ok, talvez nos "chifrinhos"). Mas alguém viu semelhança o suficiente e chamou a girafa de “kirin”, e até hoje essa palavra denomina o animal real e o animal imaginário.

Quando eu aprendi essa história, ela me deixou um bom tempo pensando sobre as denominações que damos a outras coisas. Digo isso porque encontramos todos os dias inúmeros exemplos de coisas assim.

Todo bom falador de inglês sabe, por exemplo, que “gay”, antes de se referir a uma orientação, antigamente se referia a algo alegre. E, já que estamos neste exemplo, vale lembrar que “faggot”, hoje uma gíria pejorativa para denominar um homem gay, já foi usada como um termo pejorativo para mulheres e possivelmente deriva de “fagot”, que denomina, entre outras coisas, um “pacote” ou um conjunto de gravetos amarrados.

Em português, não usamos “faggot” de maneira corrente, mas usamos “veado” ou “viado”. Alguém poderia dizer que “veado” teria sido atribuído devido ao aspecto mais frágil do animal, mas aparentemente esse não é o caso: popularmente, fala-se que “viado” é derivado de “transviado”. Assim, “transviado” teria originado “viado”, que teria originado “veado”, que teria sido relacionado, por exemplo, a “Bambi”, derivação óbvia pelo personagem de mesmo nome, ou associações com o número 24, que representa o animal no Jogo do Bicho.

É realmente interessante, para mim, observar esse tipo de coisa. Muitos linguistas afirmam (e aqui, estou parafraseando) que o significado real de palavras é o que se faz delas, entendendo que a língua possui vida própria. Esse é um posicionamento que é denominado “descritivismo”. Assim, simplificando bastante, tentar prender palavras em significados antigos seria inútil, e tentar criar novos significados em palavras só funcionaria com a adesão popular.

Em outras palavras, no Japão girafas são kirins porque as pessoas as chamam de kirins e não de girafas, e “gay” não é mais o mesmo que “alegre”, ainda que vários livros antigos utilizem o adjetivo nesse sentido.

O dicionário Merriam-Webster da língua inglesa, declaradamente descritivista, destacou-se nos últimos anos com momentos em que posicionava-se com a visão de que o que vale é o uso corrente, não o que a tradição da língua insiste. Um primeiro caso interessante foi quando reconheceram o uso de “literally” (“literalmente”) tanto para significar “literalmente” quando “figurativamente”. Um segundo momento, mais recente, foi quando apoiaram o uso do pronome “they” (“eles/elas”) como um pronome singular de gênero neutro.

Nós estamos em um momento em que é particularmente fácil de identificar esses efeitos sociais. É fácil de ver como, nas décadas passadas, vários movimentos sociais tomaram de maneiras diferentes certas palavras e buscaram ressignificações, muitas vezes adicionando níveis de significado antes ausentes. A comunidade negra anglófona, por exemplo, em especial nos EUA, apropriou-se do termo racista “nigger" para se fortalecerem. Na mesma linha, porém de maneira diferente, o movimento feminista “Slut Walk” (em sua encarnação em português, “Marcha das Vadias”) tomou o insulto de “slut” (“vadia”) para falar de liberdade, por entenderem uma dissociação do significado que era entendido da palavra.

Inúmeras outras frentes de grupos hoje buscam ressignificar termos pejorativos ou incentivar o uso de expressões mais inclusivas ou que expliquem melhor identidades e características referentes a seus grupos. Alguns termos, aliás, nem eram exatamente novos: você já ouviu a expressão “neurotípico”? Pois ele designa o indivíduo que não apresenta distúrbios significativos no funcionamento psíquico. O termo, junto de seu oposto “neuroatípico”, tem ganhado mais notoriedade conforme algumas pessoas notam que chamar alguém que possui algum distúrbio mental ou emocional de “anormal” (em oposição a “normal”) mais atrapalha do que ajuda.

Não foram só os movimentos sociais de minorias (em números ou em direitos) que descobriram o poder das palavras. Você já reparou nos usos que a palavra “família” tem? E a expressão “família tradicional”? Em 2015, ambas expressões deram o que falar, especialmente depois da aprovação do chamado “Estatuto da Família”, que, idealizado por bastiões do conservadorismo, denominava que “família” é exclusivamente a união de homem e mulher, colocando no papel tal definição.

Por mais que o papel e a definição existam, por mais que possa efetivamente influenciar algum nível de ações jurídicas, a realidade é outra. Inúmeras manifestações demonstraram que famílias continuam existindo e continuarão existindo e se denominando como tais, mesmo que não sejam formadas a partir da união de um homem e de uma mulher. Não interessa se um grupo acha que o significado de uma palavra deve ser o que eles pregam.

Nessa luta de significados, um caso extremamente peculiar é a recente tentativa de criação do conceito de “cristofobia”, denominada por alguns indivíduos cristãos como a perseguição religiosa por suas crenças. A semelhança do termo com “homofobia” não é à toa, já que a expressão foi usada, ao menos inicialmente, em resposta a acusações de comportamento homofóbico que foram justificados com religião. Ou seja, tentaram usar significados: criaram uma palavra para ressignificar a reação de outras pessoas ao que faziam.

Não fui eu, aliás, quem disse que o intuito por trás do termo é esse, a comparação foi do vereador que tentou emplacar o "Dia do Combate à Cristofobia."

Acho que todos nós temos muito a aprender com a visão japonesa das girafas. Mesmo que você chame uma girafa de kirin, se ninguém mais a chamar de “kirin”, ela continuará sendo uma girafa. Ela só será “kirin” se pessoas o suficiente a chamarem de “kirin”.

Você pode tentar trocar “estão reclamando que eu estou falando que gays são aberrações e não quero isso” por “estou sofrendo cristofobia”, e pode até tentar aprovar uma lei para tentar se proteger de reprovação moral (e nada além disso) que continuará existindo.

Mas entenda uma coisa: mesmo que você force todas as pessoas a concordarem com você por fora, mesmo que cale as bocas de todos que discordarem, mesmo que os puna, sua girafa continuará sendo uma girafa.

O que é que você quer ser quando crescer?

www.facebook.com/verdadestristes

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Quando eu era criança, eu sempre ouvia essa frase.

“O que você quer ser quando crescer?”

Era uma frase que carregava significados muito fortes. Essa frase diz, por exemplo, que quem ouve vai crescer, e não apenas fisicamente. Ela implica crescimento psicológico, crescimento de conhecimento. Talvez até moral. Ela implica um futuro maior e melhor que o atual.

Essa é uma frase para a qual damos pouco crédito, mas que tem um potencial incrível: implicitamente estamos dizendo para a criança que ela poderá ser o que quiser, mesmo que nós mesmos não acreditemos.

Há algum tempo eu decidi passar a perguntar isso a mim mesmo novamente.

No meu pensamento. Na hora de dormir. Na frente do espelho. Durante o banho. Enquanto estudo, trabalho, falo com as pessoas. Sempre.

Quando é que nós paramos de ouvir esse tipo de coisa? Quando é que as possibilidades se fecham para nós?

Quando é que nós desejarmos algo se torna irreal, ridículo ou censurável?

Quando é que achamos que paramos de crescer, só porque nossos corpos já cresceram?

Quando é que nos convenceram de que o que aprendemos até agora é o bastante, que a maneira que fazemos as coisas é a melhor que podemos, que a maneira como o mundo existe ao nosso redor não é nossa responsabilidade e que a maneira como nos relacionamos com os outros é a mais madura?

Não sei.

Não sei quando foi que aceitamos que é aceitável não crescer.

Lembra? Quando você era criança, o que você queria ser quando crescer já ia além de seu corpo e do tempo até o fim de uma faculdade, de onde você sairia com seu diploma de adulto.

Não. Não podemos deixar de fazer a pergunta com a maior frequência possível:

“O que você quer ser quando crescer?”

Esta é uma pergunta que nunca pode deixar de fazer sentido para nós. Existe uma tendência pouquíssimo saudável de acreditarmos que só porque já crescemos, não devemos “crescer”.

Você pode até deixar de crescer com “c” minúsculo. É biologia. Mas você nunca deve deixar de Crescer, com “C” maiúsculo. Ainda que lhe digam que isso é biologia.

Não existe idade para se ser grande, não existe idade para parar de tentar Crescer.

Você sabe quem é? O que faz? Como faz? Onde erra? O que não entende ou não sabe ou não conhece?

Quais são seus planos? O que você faz com seu tempo? Qual é o seu planejamento para crescer? O que você quer estudar? O que você precisa melhorar?

Se você parou de fazer perguntas, algo está errado. Se você acha que se conhece totalmente, algo está errado.

Eu tenho algumas metas na vida. Eu tenho muitas metas, na verdade. Mas elas são ditadas por mais ou menos três que são mais importantes que todas. Eu as exponho aqui, porque acho que são metas que valem para todos:

A primeira é que o meu “eu” atual seja sempre superior ao meu “eu” passado em algo mais do que experiência acumulada.

A segunda é que eu nunca me torne hipócrita ou desonesto, por mais que o mundo frequentemente sugira que isso é inevitável.

E a terceira é que eu não pare nunca de Crescer.

Resumindo, que a cada dia, mês, ano, eu me torne alguém digno de ter sido minha própria meta de crescimento.

Que eu possa me tornar alguém que seria minha meta, quando alguém me perguntasse “O que você quer ser quando crescer?” quando eu era criança.

Mais um ano se passou e eu aprendi muito. Eu estudei muito, li muito. Me enchi de conhecimento e experiência prática que eu posso dividir com todos. Me enchi de conhecimento e experiência subjetiva, que muitas vezes funciona apenas para mim. Eu fiz coisas grandes e pequenas. Eu me relacionei com pessoas agradáveis e desagradáveis.

Mas eu termino mais um ano satisfeito, porque eu sinto que cresci. O meu “eu” de um ano atrás seguramente poderia me ter como meta, ou ao menos algumas das coisas que conquistei.

Agora eu olho outra vez para mim — e sugiro a todos que façam o mesmo — e me pergunto: o que é que você vai ser quando crescer?

Dando o Exemplo

Existe uma frase que eu ouço desde que eu era criança:

“Você tem que dar o exemplo.”

Outras variações e permutações incluem “Devemos ensinar através do exemplo”, “Devemos dar exemplos às próximas gerações” e coisas parecidas.

Eu sempre achei esse tipo de pensamento admirável.

Quando eu era criança, eu entendia que isso deixava implícito que os adultos entendiam das coisas. Tive a sorte de ser exposto a ótimos exemplos durante a minha vida.

Depois que cresci, porém, notei que havia sido exposto também a alguns exemplos ruins. Mas é fato que, como bem diziam todas as pessoas que me falavam sobre ensinar através do exemplo, eu não notava o que era um mau exemplo quando eu só tinha o mau exemplo.

Agora, como um adulto (ou coisa parecida), tenho um discernimento maior e tenho acesso a mais exemplos que, no geral, me permitiram decidir como prefiro me comportar, como acho justo e certo.

Só que neste mundo em que discussões de toda natureza se tornam cada vez mais importantes para todos, especialmente no que toca a política, eu raramente vejo exemplos que gostaria que fossem passados às próximas gerações.

As lições básicas de convivência caem por terra simplesmente porque — aparentemente — nossas decisões adultas são importantes e acima deste tipo de coisa, coisas básicas como a “moral” e os “bons costumes” que as pessoas adoram citar.

Se você não notou o sarcasmo desta frase, deixo ele claro neste momento: nós não podemos aceitar que qualquer assunto ou decisão viole o que consideramos justo e certo. Nós não podemos esquecer o respeito, a boa convivência e, acima de tudo, o fato de que todos têm os mesmos direitos, não importa a situação.

Assim, eu fiquei pensando por muito tempo nessas coisas que aceitamos e penso que chegou a hora de lembrarmos algumas lições de nossas infâncias, porque afinal, nós que temos que dar o exemplo. E se ninguém quer agir como adulto, vamos conversar como se falássemos com crianças:

Versão Kids —Não brigue com seus amigos! / Não brigue com seus irmãos! / Não brigue na rua!

Versão para Adultos —
Quando foi a última vez que você agrediu fisicamente uma pessoa? Talvez faça bastante tempo, talvez nunca o tenha feito.

Quando foi a última vez que você insultou alguém? Agora é um pouco diferente, né?

Fomos ensinados quando crianças a não brigar com os outros, não brigar na rua, não desrespeitar… mas estamos xingando as pessoas no trânsito e agredindo em espaços públicos quem não concorda com nossa filosofia, política ou religião.

Não, isso não podemos aceitar.

Redes sociais são um mar disso. Pessoas destilando ódio contra as outras simplesmente por discordarem, e por vezes mesmo sem discordarem.

“Mas eles fizeram algo que não concordo!“ Isso não é motivo.

“Mas eu não gosto deles!“ Isso é menos motivo ainda.

“Mas eles que começaram!” “Não importa quem começou“, diziam os pais e professores em nossa infância. Para eles, isso era simplesmente uma maneira de parar a briga. Mas alguns já sabiam de algo quando diziam isso — não existe conselho mais sábio. Nós não vamos parar a briga enquanto não pararmos a briga.

Se alguém começa a briga, é nosso dever moral de finalizar a briga. Não estou falando apenas de parar a pessoa. Se alguém está insatisfeito, devemos entender o que acontece. Devemos entender porque a briga começou e é isso que devemos parar.

E devemos lembrar sempre que, mesmo que a pessoa esteja errada, ela ainda está sujeita à mesma lei e moral que você. Não podemos aceitar exceções — se há exceção, não é regra, e se aceitamos exceções para nós, temos que aceitar para os outros.

Versão Kids — Brigou? Ficou de mal? Pare com isso e faça as pazes agora mesmo!

Versão para Adultos –

Quando foi que nós passamos a achar aceitável que existam diferenças irreconciliáveis? Quando foi que “irreconciliável” passou a ser possível?

Estamos em uma época em que brigas por ideologias e teorias se tornam mais importantes do que coisas sólidas e reais.

Estamos na época em que um amigo ou parente que tenha um posicionamento político diferente do seu é motivo o suficiente para que você o bloqueie em redes sociais e se recuse a voltar a conversar. Já ouvi histórias de pessoas que deixaram de conviver na vida real.

Isso sem falar na animosidade que é criada e sustentada por uma questão que, francamente, é orgulho. Você pode achar que alguém está errado e não odiar essa pessoa, mesmo que ela ache que você está errado.

Não estou falando que as pessoas não tem opiniões nocivas ou agressivas e muito menos que devemos aceitar essas opiniões deletérias. O que estou falando é que enquanto isso for visto simplesmente como uma briga com dois lados, não vamos chegar a lugar algum. A briga ridícula de colocar lados em política ou qualquer coisa, por exemplo, não permite uma discussão saudável, porque simplesmente não queremos discutir com quem não achamos aceitável.

Para a discussão crescer, nós também temos que crescer e entender isso.

Versão Kids —Mentir é feio!

Versão para Adultos –

Quase consigo ver os cérebros pulsando com desculpas de “mentira branca”, “mentira inocente” e outras necessidades sociais para a mentira.

Obviamente, a maneira com que a sociedade é construída, bem como o que é esperado de relacionamentos não permite que falemos a um estranho “você está com um bafo horrível”, ou coisa parecida. Mas obviamente não é disso que estou falando neste texto.

Se estamos falando com adultos, vamos falar sobre mentiras adultas: você declarou tudo certo em seu imposto de renda? Você mentiu para seus clientes ou empregadores para conseguir alguma vantagem? E para cônjuges? Amigos?

Eu tenho plena consciência de quão ridículo e inocente devo soar pedindo a adultos que não mintam, mas aqui estou eu: não mintam.

É a sua mentira que dá apoio a todas as outras mentiras com que você convive. Soa exagerado, pois tome outro exagero: o mundo só mente porque nós aceitamos mentir.

Os políticos só mentem porque nós aceitamos mentir.

Seu funcionário ou colega de trabalho só mente porque nós aceitamos mentir.

Em uma sociedade transparente e verdadeira, me diga qual seria a chance de ouvirmos um “eu não sei de nada” ou “esse dinheiro não é meu”?

Nossas mentiras permitem a mentira alheia.

Parece simplista ou quase místico, mas quantas vezes não aceitamos uma informação incompleta, manipulada ou simplesmente mentirosa simplesmente porque ela concorda com o que queremos? Quantas vezes não apoiamos um mentiroso porque é um mentiroso que nos agrada?

Se queremos ser realmente verdadeiros, temos que ser verdadeiros.

A partir do momento em que você tem um motivo para defender uma ideia, especialmente quando essa ideia se opõe à de outras pessoas, você deve imediatamente comprometer-se a cumpri-la e ser um exemplo dessa ideia ou filosofia. Você não pode ter exceções, caso contrário irá se tornar hipócrita.

Há quem diga que inevitavelmente nos tornaremos hipócritas, uma vez que muito disso envolve uma certa relatividade de fatos. Mas isso não é desculpa para aumentar sua hipocrisia, e sim para reduzi-la ao máximo.

Versão Kids — Apontar é feio

Versão para Adultos –

“Olha aquela pessoa!”

“Nossa, que _______” (Complete com o adjetivo de preferência.)

Quando éramos crianças, apontar para qualquer pessoa para mostrar o que ela tinha de diferente era a principal maneira de deixarmos nossos pais constrangidos. Era a principal maneira de criar um climão na frente de qualquer adulto, conhecido ou desconhecido.

Nossos pais, morrendo de vergonha, nos diziam que era feio apontar para as pessoas, que era feio discriminar por alguma característica. Ou, se não usavam essa justificativa, apenas falavam para sermos discretos para não envergonhar a pessoa ou — pior, muito pior — envergonhá-los, criando uma situação de enfrentamento.

E então crescemos e olhamos jornais, revistas, sites na Internet e programas de televisão que dedicam a totalidade de seu conteúdo em apontar para os outros e suas características com a mesma cara de pau de qualquer criança que diz “Olha o cabelo daquele cara, mãe!”

Como eu já disse neste mesmo artigo, se aceitamos uma regra para os outros, devemos aceitar a nós mesmos. E não estou falando que se você é de alguma maneira, pode fazer piada com quem é da mesma maneira. Me refiro ao fato de que se você julgar (e condenar), você perpetua um comportamento de julgamento (e condenação).

Considere por um instante as maneiras porque as pessoas apontam e discriminam, e sem dificuldade notará que a maior parte delas pode ser simplificado pelo termo “é diferente”. Nós apontamos e discriminamos (e aqui, uso o termo “discriminar” em todos sentidos possíveis) as pessoas porque elas não são como nós, ou não são como nosso ideal de aparência, estilo ou comportamento.

Já diz a sabedoria popular que é fácil quando não é com a gente. E realmente é fácil — achar defeitos nos outros é facílimo. Mas por que devemos fazer isso? Por que raios isso é aceitável? Não aceite que as pessoas condenem, não condene e não faça parte disso. Especialmente porque se você condena o diferente, você só ajuda as pessoas que querem colocar tudo em caixinhas simples.

Condenar os outros pelo que são apenas coíbe a diferença. E a diferença é que nos dá opções para evoluirmos.

Se você em algum momento aceita a condenação alheia, se verá de mãos atadas quando chegar a sua vez de ser julgado(a) e condenado(a).

Versão Kids —Não é pra ficar fofocando!

Versão para Adultos –

Depois de aprender a não mentir e a não apontar, ainda era necessário aos nossos pais nos dizerem para não fofocarmos. As outras duas lições tem boa parte do espírito desta, mas talvez pelo fato de somos criados cercados por fofoca por pais, professores, amigos, canais de notícias e todo tipo de manifestação cultural, acabamos não notando o quão internalizado o conceito está.

Fofocar sobre a vida dos outros, se pensarmos bem, é inútil. Tanto porque reproduz inverdades e especulações, muitas vezes sobre coisas que nem são de nossa conta, quanto pelo fato de que cria uma cultura bizarra em que notícias inúteis e comportamentos inúteis são recompensados e reproduzidos.

Sabe aquela notícia que soa quase esquizofrênica, sobre um artista indo comprar pão, ou sobre como alguém foi passear com o cachorro, ou sobre como saiu vestindo alguma roupa feia? É a fofoca que alimenta esse tipo de inutilidade.

O pior, porém, é que a fofoca é quase como uma doença: Quando passamos a aceitar que a vida alheia afete a nossa nesse tipo de assunto que não leva a nenhum lugar, nós alimentamos uma corrente, permitindo que nós mesmos nos tornemos fonte de fofoca. Não só isso, nós perdemos tempo. Mas, mais importante, nós tiramos, pelo tempo que seja, o foco do que deveria ser mais importante para cada um de nós: a nossa própria vida.

(Reprodução: O Pintinho —  http://opintinho.com.br/post/129713575755)

(Reprodução: O Pintinho — http://opintinho.com.br/post/129713575755)

Não estou sugerindo qualquer tipo de egocentrismo aqui. Quero apenas que entendam: nós temos a nossa vida. Nós podemos fazer muito dentro dela. Mas se sua vida é tão pouco interessante que você deve discutir a vida alheia para torná-la minimamente excitante, algo está muito errado.

Versão Kids — Seja um bom menino! / Seja uma boa menina!

Versão para Adultos –

Esse não tem muita diferença para os adultos, gente. É simples: se você está agredindo alguém, algo está errado. Se você coibiu alguém, algo está errado. Se você fez alguém infeliz, algo está errado.

Isso vai além de qualquer filosofia, política ou religião. Ser legal com os outros é algo que deveria ser padrão.

E agredir, coibir e fazer infeliz também vale para você. Seja bom consigo mesmo(a). Se tem uma coisa que o mundo tem demais, é infelicidade. A melhor recompensa que você pode dar para o mundo é ser feliz, desde que isso não prejudique a felicidade alheia.

Por que não ter contentamento?

Tome essa beluga adorável. (Fonte:  https://en.wikipedia.org/wiki/Beluga_whale)

Tome essa beluga adorável. (Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Beluga_whale)

Nós fomos educados a aceitar muito bem o descontentamento.

Espera-se, culturalmente, que reclamemos do trânsito, do clima, da política, da segunda-feira, da ignorância do mundo, do azar, do atraso incontrolável, da dor de dente, da solidão, da companhia, da própria aparência, da aparência dos outros, da música, do silêncio e de basicamente tudo e nada. Se não temos do que reclamar ou achar ruim, nós procuramos e encontramos. Nós estamos mais prontos o descontentamento do que para o contentamento.

(É sério, biologicamente nós estamos prontos para darmos mais atenção às coisas negativas.)

Se você rir à toa, você é bobo, tolo, cabeça-de-vento.

Mais do que seriedade, somos cobrados para que tenhamos descontentamento.

Em uma época que expressões como “revolta” se tornam recorrentes no imaginário e no vocabulário popular e que cada comentário na Internet e cada conversa entre amigos tem material para dias e dias de descontentamento, parece cada vez mais difícil fazer o contrário.

Mas são realmente as coisas que nos trazem descontentamento ou nós que temos descontentamento em relação às coisas?

Parece besteira filosófica inaplicável, mas não é. Parece auto-ajuda barata, mas não é.

Sério, não é.

Quando falamos de contentamento, o que as pessoas pensam é aquela velha história de “olhar o lado bom das coisas” e isso é realmente algo válido, mas não é toda a verdade.

Eric Idle, da trupe de humor Monty Python, criou anos atrás uma das músicas mais conhecidas do grupo, que literalmente leva essas palavras — sempre olhe o lado bom da vida.

Só que a música tem uma série de outros truquinhos que se disfarçam pela letra. Mais do que apenas falar sobre o lado bom, ela tem um conselho que parece o mais bobo de todos: quando você está para baixo, assovie.

"É isso mesmo, Rodrigo? Esse é seu conselho idiota? Assoviar?"

Sim. Ou melhor, não, mas também sim.

O ponto dessa ideia de assoviar quando se está na pior é uma mudança simples de atitude que temos dificuldade em trabalhar normalmente — quando estamos na pior e não temos mais nada a fazer, ao menos pelo tempo corrente (ou, quem sabe, para sempre), nós temos duas opções: ou nós vamos deixar que isso nos afete, ou não.

(Ah, mas também vale ressaltar que do mesmo jeito que somos pessimistas biológicos, sorrir biologicamente nos torna mais felizes. Sério.)

Ressalto já que isto é uma habilidade que requer desenvolvimento, mas vamos para um exemplo simples: você está no trânsito, em seu carro. O trânsito aumenta e você nota que vai se atrasar para o trabalho. Nesse momento, você observa que não existem rotas alternativas, então o que terá que fazer é aguentar o trânsito até chegar.

Você não tem mais o que fazer, mas isso é frustrante. É irritante. O que lhe dá duas escolhas: ou você se irritará com o trânsito, ou não.

Nós estamos acostumados a achar que isso é incontrolável, mas não é.

Contentamento é um pouco como um músculo. Você deve exercitar. O desafio, que já é a recompensa, é quando você consegue ter contentamento independentemente do que acontece. É o não deixar as coisas te afetarem, É ter contentamento apesar das coisas. É não tornar seu contentamento dependente das coisas boas ou ausência de ruins.

A música de Eric Idle tem outra frase muito boa aqui (tradução minha):

"A vida é uma risada e a morte é uma piada, é verdade. Você verá que isso tudo é um show. Mantenha-os rindo enquanto você segue. Só se lembre que o último a rir é você."

Ter contentamento constantemente requer essa mudança de atitude que é contraintuitiva, mas existem diversas maneiras que se completam.

Para mim, treinar o desapego ajuda muito, porque entendo que muitas vezes o meu descontentamento é relacionado à maneira que me apego a coisas que quero que sejam de uma ou de outra maneira.

Ou seja, meu descontentamento surge a partir de minhas expectativas, e expectativas dificilmente condizem com a realidade. Ao mesmo tempo, o desapego ajuda a lembrar que — repito — nós temos o costume do descontentamento. E isso é algo de que podemos nos desapegar.

Se nós deixamos as coisas mexerem com nosso contentamento, algo está errado. Não sei quanto a vocês, mas eu prefiro estar em controle sobre meu bem-estar. Já dizia William Ernest Henley em seu poema Invictus:

"Eu sou o mestre do meu destino; / Eu sou o capitão de minha alma."

Os indianos tem um nome legal para esse contentamento. Para eles, é um preceito ético conhecido como "Santôsha".

Santosha significa… "contentamento". Sim, não tem segredo. Mas o que é mais legal é o que se diz sobre ele. DeRose escreveu sobre ele, baseando-se em textos de Pátañjali. Destaco um parágrafo que para mim é especialmente interessante:

"O contentamento e sua antítese, o descontentamento, são independentes das circunstâncias geradoras. Surgem, crescem e cingem o indivíduo apenas devido à existência do gérmen desses sentimentos no âmago da personalidade."

E algo que provavelmente todos nós já ouvimos, mas que nem sempre levamos tão à sério, é a capacidade de rirmos de nós mesmo. Nós somos ridículos, gente. Não vamos fingir que não. E ter essa realização é fantástico, porque ela nos permite ver a maneira como que usamos descontentamento, manias e vícios e os tomamos como parte de nós mesmos.

Sejam mais contentes, pessoal. Eu estou exercitando isso e só estou ganhando.

Só para finalizar, vale destacar, porém, que o contentamento que falo aqui não é nem de longe a falta de questionamento ou a aceitação de qualquer situação. Ele não é a ausência de ação ou de inquietude, revolta ou novidade. Essas coisas podem e devem coexistir com o contentamento. Cito DeRose mais uma vez, aqui:

"A observância de santôsha não deve induzir à acomodação daqueles que usam o pretexto do contentamento para não se aperfeiçoar."

Boa sorte.

Ah, e se você conhecer alguém que sofrer de depressão, faça um favor a essa pessoa e NÃO mande este texto como uma ideia de cura ou remédio. Depressão é algo a ser tratado, não é apenas descontentamento! No caso de depressão, recomendo que busque profissionais qualificados e não textos da Internet :)