Dando o Exemplo

Existe uma frase que eu ouço desde que eu era criança:

“Você tem que dar o exemplo.”

Outras variações e permutações incluem “Devemos ensinar através do exemplo”, “Devemos dar exemplos às próximas gerações” e coisas parecidas.

Eu sempre achei esse tipo de pensamento admirável.

Quando eu era criança, eu entendia que isso deixava implícito que os adultos entendiam das coisas. Tive a sorte de ser exposto a ótimos exemplos durante a minha vida.

Depois que cresci, porém, notei que havia sido exposto também a alguns exemplos ruins. Mas é fato que, como bem diziam todas as pessoas que me falavam sobre ensinar através do exemplo, eu não notava o que era um mau exemplo quando eu só tinha o mau exemplo.

Agora, como um adulto (ou coisa parecida), tenho um discernimento maior e tenho acesso a mais exemplos que, no geral, me permitiram decidir como prefiro me comportar, como acho justo e certo.

Só que neste mundo em que discussões de toda natureza se tornam cada vez mais importantes para todos, especialmente no que toca a política, eu raramente vejo exemplos que gostaria que fossem passados às próximas gerações.

As lições básicas de convivência caem por terra simplesmente porque — aparentemente — nossas decisões adultas são importantes e acima deste tipo de coisa, coisas básicas como a “moral” e os “bons costumes” que as pessoas adoram citar.

Se você não notou o sarcasmo desta frase, deixo ele claro neste momento: nós não podemos aceitar que qualquer assunto ou decisão viole o que consideramos justo e certo. Nós não podemos esquecer o respeito, a boa convivência e, acima de tudo, o fato de que todos têm os mesmos direitos, não importa a situação.

Assim, eu fiquei pensando por muito tempo nessas coisas que aceitamos e penso que chegou a hora de lembrarmos algumas lições de nossas infâncias, porque afinal, nós que temos que dar o exemplo. E se ninguém quer agir como adulto, vamos conversar como se falássemos com crianças:

Versão Kids —Não brigue com seus amigos! / Não brigue com seus irmãos! / Não brigue na rua!

Versão para Adultos —
Quando foi a última vez que você agrediu fisicamente uma pessoa? Talvez faça bastante tempo, talvez nunca o tenha feito.

Quando foi a última vez que você insultou alguém? Agora é um pouco diferente, né?

Fomos ensinados quando crianças a não brigar com os outros, não brigar na rua, não desrespeitar… mas estamos xingando as pessoas no trânsito e agredindo em espaços públicos quem não concorda com nossa filosofia, política ou religião.

Não, isso não podemos aceitar.

Redes sociais são um mar disso. Pessoas destilando ódio contra as outras simplesmente por discordarem, e por vezes mesmo sem discordarem.

“Mas eles fizeram algo que não concordo!“ Isso não é motivo.

“Mas eu não gosto deles!“ Isso é menos motivo ainda.

“Mas eles que começaram!” “Não importa quem começou“, diziam os pais e professores em nossa infância. Para eles, isso era simplesmente uma maneira de parar a briga. Mas alguns já sabiam de algo quando diziam isso — não existe conselho mais sábio. Nós não vamos parar a briga enquanto não pararmos a briga.

Se alguém começa a briga, é nosso dever moral de finalizar a briga. Não estou falando apenas de parar a pessoa. Se alguém está insatisfeito, devemos entender o que acontece. Devemos entender porque a briga começou e é isso que devemos parar.

E devemos lembrar sempre que, mesmo que a pessoa esteja errada, ela ainda está sujeita à mesma lei e moral que você. Não podemos aceitar exceções — se há exceção, não é regra, e se aceitamos exceções para nós, temos que aceitar para os outros.

Versão Kids — Brigou? Ficou de mal? Pare com isso e faça as pazes agora mesmo!

Versão para Adultos –

Quando foi que nós passamos a achar aceitável que existam diferenças irreconciliáveis? Quando foi que “irreconciliável” passou a ser possível?

Estamos em uma época em que brigas por ideologias e teorias se tornam mais importantes do que coisas sólidas e reais.

Estamos na época em que um amigo ou parente que tenha um posicionamento político diferente do seu é motivo o suficiente para que você o bloqueie em redes sociais e se recuse a voltar a conversar. Já ouvi histórias de pessoas que deixaram de conviver na vida real.

Isso sem falar na animosidade que é criada e sustentada por uma questão que, francamente, é orgulho. Você pode achar que alguém está errado e não odiar essa pessoa, mesmo que ela ache que você está errado.

Não estou falando que as pessoas não tem opiniões nocivas ou agressivas e muito menos que devemos aceitar essas opiniões deletérias. O que estou falando é que enquanto isso for visto simplesmente como uma briga com dois lados, não vamos chegar a lugar algum. A briga ridícula de colocar lados em política ou qualquer coisa, por exemplo, não permite uma discussão saudável, porque simplesmente não queremos discutir com quem não achamos aceitável.

Para a discussão crescer, nós também temos que crescer e entender isso.

Versão Kids —Mentir é feio!

Versão para Adultos –

Quase consigo ver os cérebros pulsando com desculpas de “mentira branca”, “mentira inocente” e outras necessidades sociais para a mentira.

Obviamente, a maneira com que a sociedade é construída, bem como o que é esperado de relacionamentos não permite que falemos a um estranho “você está com um bafo horrível”, ou coisa parecida. Mas obviamente não é disso que estou falando neste texto.

Se estamos falando com adultos, vamos falar sobre mentiras adultas: você declarou tudo certo em seu imposto de renda? Você mentiu para seus clientes ou empregadores para conseguir alguma vantagem? E para cônjuges? Amigos?

Eu tenho plena consciência de quão ridículo e inocente devo soar pedindo a adultos que não mintam, mas aqui estou eu: não mintam.

É a sua mentira que dá apoio a todas as outras mentiras com que você convive. Soa exagerado, pois tome outro exagero: o mundo só mente porque nós aceitamos mentir.

Os políticos só mentem porque nós aceitamos mentir.

Seu funcionário ou colega de trabalho só mente porque nós aceitamos mentir.

Em uma sociedade transparente e verdadeira, me diga qual seria a chance de ouvirmos um “eu não sei de nada” ou “esse dinheiro não é meu”?

Nossas mentiras permitem a mentira alheia.

Parece simplista ou quase místico, mas quantas vezes não aceitamos uma informação incompleta, manipulada ou simplesmente mentirosa simplesmente porque ela concorda com o que queremos? Quantas vezes não apoiamos um mentiroso porque é um mentiroso que nos agrada?

Se queremos ser realmente verdadeiros, temos que ser verdadeiros.

A partir do momento em que você tem um motivo para defender uma ideia, especialmente quando essa ideia se opõe à de outras pessoas, você deve imediatamente comprometer-se a cumpri-la e ser um exemplo dessa ideia ou filosofia. Você não pode ter exceções, caso contrário irá se tornar hipócrita.

Há quem diga que inevitavelmente nos tornaremos hipócritas, uma vez que muito disso envolve uma certa relatividade de fatos. Mas isso não é desculpa para aumentar sua hipocrisia, e sim para reduzi-la ao máximo.

Versão Kids — Apontar é feio

Versão para Adultos –

“Olha aquela pessoa!”

“Nossa, que _______” (Complete com o adjetivo de preferência.)

Quando éramos crianças, apontar para qualquer pessoa para mostrar o que ela tinha de diferente era a principal maneira de deixarmos nossos pais constrangidos. Era a principal maneira de criar um climão na frente de qualquer adulto, conhecido ou desconhecido.

Nossos pais, morrendo de vergonha, nos diziam que era feio apontar para as pessoas, que era feio discriminar por alguma característica. Ou, se não usavam essa justificativa, apenas falavam para sermos discretos para não envergonhar a pessoa ou — pior, muito pior — envergonhá-los, criando uma situação de enfrentamento.

E então crescemos e olhamos jornais, revistas, sites na Internet e programas de televisão que dedicam a totalidade de seu conteúdo em apontar para os outros e suas características com a mesma cara de pau de qualquer criança que diz “Olha o cabelo daquele cara, mãe!”

Como eu já disse neste mesmo artigo, se aceitamos uma regra para os outros, devemos aceitar a nós mesmos. E não estou falando que se você é de alguma maneira, pode fazer piada com quem é da mesma maneira. Me refiro ao fato de que se você julgar (e condenar), você perpetua um comportamento de julgamento (e condenação).

Considere por um instante as maneiras porque as pessoas apontam e discriminam, e sem dificuldade notará que a maior parte delas pode ser simplificado pelo termo “é diferente”. Nós apontamos e discriminamos (e aqui, uso o termo “discriminar” em todos sentidos possíveis) as pessoas porque elas não são como nós, ou não são como nosso ideal de aparência, estilo ou comportamento.

Já diz a sabedoria popular que é fácil quando não é com a gente. E realmente é fácil — achar defeitos nos outros é facílimo. Mas por que devemos fazer isso? Por que raios isso é aceitável? Não aceite que as pessoas condenem, não condene e não faça parte disso. Especialmente porque se você condena o diferente, você só ajuda as pessoas que querem colocar tudo em caixinhas simples.

Condenar os outros pelo que são apenas coíbe a diferença. E a diferença é que nos dá opções para evoluirmos.

Se você em algum momento aceita a condenação alheia, se verá de mãos atadas quando chegar a sua vez de ser julgado(a) e condenado(a).

Versão Kids —Não é pra ficar fofocando!

Versão para Adultos –

Depois de aprender a não mentir e a não apontar, ainda era necessário aos nossos pais nos dizerem para não fofocarmos. As outras duas lições tem boa parte do espírito desta, mas talvez pelo fato de somos criados cercados por fofoca por pais, professores, amigos, canais de notícias e todo tipo de manifestação cultural, acabamos não notando o quão internalizado o conceito está.

Fofocar sobre a vida dos outros, se pensarmos bem, é inútil. Tanto porque reproduz inverdades e especulações, muitas vezes sobre coisas que nem são de nossa conta, quanto pelo fato de que cria uma cultura bizarra em que notícias inúteis e comportamentos inúteis são recompensados e reproduzidos.

Sabe aquela notícia que soa quase esquizofrênica, sobre um artista indo comprar pão, ou sobre como alguém foi passear com o cachorro, ou sobre como saiu vestindo alguma roupa feia? É a fofoca que alimenta esse tipo de inutilidade.

O pior, porém, é que a fofoca é quase como uma doença: Quando passamos a aceitar que a vida alheia afete a nossa nesse tipo de assunto que não leva a nenhum lugar, nós alimentamos uma corrente, permitindo que nós mesmos nos tornemos fonte de fofoca. Não só isso, nós perdemos tempo. Mas, mais importante, nós tiramos, pelo tempo que seja, o foco do que deveria ser mais importante para cada um de nós: a nossa própria vida.

 (Reprodução: O Pintinho —  http://opintinho.com.br/post/129713575755)

(Reprodução: O Pintinho — http://opintinho.com.br/post/129713575755)

Não estou sugerindo qualquer tipo de egocentrismo aqui. Quero apenas que entendam: nós temos a nossa vida. Nós podemos fazer muito dentro dela. Mas se sua vida é tão pouco interessante que você deve discutir a vida alheia para torná-la minimamente excitante, algo está muito errado.

Versão Kids — Seja um bom menino! / Seja uma boa menina!

Versão para Adultos –

Esse não tem muita diferença para os adultos, gente. É simples: se você está agredindo alguém, algo está errado. Se você coibiu alguém, algo está errado. Se você fez alguém infeliz, algo está errado.

Isso vai além de qualquer filosofia, política ou religião. Ser legal com os outros é algo que deveria ser padrão.

E agredir, coibir e fazer infeliz também vale para você. Seja bom consigo mesmo(a). Se tem uma coisa que o mundo tem demais, é infelicidade. A melhor recompensa que você pode dar para o mundo é ser feliz, desde que isso não prejudique a felicidade alheia.