Por que não ter contentamento?

 Tome essa beluga adorável. (Fonte:  https://en.wikipedia.org/wiki/Beluga_whale)

Tome essa beluga adorável. (Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Beluga_whale)

Nós fomos educados a aceitar muito bem o descontentamento.

Espera-se, culturalmente, que reclamemos do trânsito, do clima, da política, da segunda-feira, da ignorância do mundo, do azar, do atraso incontrolável, da dor de dente, da solidão, da companhia, da própria aparência, da aparência dos outros, da música, do silêncio e de basicamente tudo e nada. Se não temos do que reclamar ou achar ruim, nós procuramos e encontramos. Nós estamos mais prontos o descontentamento do que para o contentamento.

(É sério, biologicamente nós estamos prontos para darmos mais atenção às coisas negativas.)

Se você rir à toa, você é bobo, tolo, cabeça-de-vento.

Mais do que seriedade, somos cobrados para que tenhamos descontentamento.

Em uma época que expressões como “revolta” se tornam recorrentes no imaginário e no vocabulário popular e que cada comentário na Internet e cada conversa entre amigos tem material para dias e dias de descontentamento, parece cada vez mais difícil fazer o contrário.

Mas são realmente as coisas que nos trazem descontentamento ou nós que temos descontentamento em relação às coisas?

Parece besteira filosófica inaplicável, mas não é. Parece auto-ajuda barata, mas não é.

Sério, não é.

Quando falamos de contentamento, o que as pessoas pensam é aquela velha história de “olhar o lado bom das coisas” e isso é realmente algo válido, mas não é toda a verdade.

Eric Idle, da trupe de humor Monty Python, criou anos atrás uma das músicas mais conhecidas do grupo, que literalmente leva essas palavras — sempre olhe o lado bom da vida.

Só que a música tem uma série de outros truquinhos que se disfarçam pela letra. Mais do que apenas falar sobre o lado bom, ela tem um conselho que parece o mais bobo de todos: quando você está para baixo, assovie.

"É isso mesmo, Rodrigo? Esse é seu conselho idiota? Assoviar?"

Sim. Ou melhor, não, mas também sim.

O ponto dessa ideia de assoviar quando se está na pior é uma mudança simples de atitude que temos dificuldade em trabalhar normalmente — quando estamos na pior e não temos mais nada a fazer, ao menos pelo tempo corrente (ou, quem sabe, para sempre), nós temos duas opções: ou nós vamos deixar que isso nos afete, ou não.

(Ah, mas também vale ressaltar que do mesmo jeito que somos pessimistas biológicos, sorrir biologicamente nos torna mais felizes. Sério.)

Ressalto já que isto é uma habilidade que requer desenvolvimento, mas vamos para um exemplo simples: você está no trânsito, em seu carro. O trânsito aumenta e você nota que vai se atrasar para o trabalho. Nesse momento, você observa que não existem rotas alternativas, então o que terá que fazer é aguentar o trânsito até chegar.

Você não tem mais o que fazer, mas isso é frustrante. É irritante. O que lhe dá duas escolhas: ou você se irritará com o trânsito, ou não.

Nós estamos acostumados a achar que isso é incontrolável, mas não é.

Contentamento é um pouco como um músculo. Você deve exercitar. O desafio, que já é a recompensa, é quando você consegue ter contentamento independentemente do que acontece. É o não deixar as coisas te afetarem, É ter contentamento apesar das coisas. É não tornar seu contentamento dependente das coisas boas ou ausência de ruins.

A música de Eric Idle tem outra frase muito boa aqui (tradução minha):

"A vida é uma risada e a morte é uma piada, é verdade. Você verá que isso tudo é um show. Mantenha-os rindo enquanto você segue. Só se lembre que o último a rir é você."

Ter contentamento constantemente requer essa mudança de atitude que é contraintuitiva, mas existem diversas maneiras que se completam.

Para mim, treinar o desapego ajuda muito, porque entendo que muitas vezes o meu descontentamento é relacionado à maneira que me apego a coisas que quero que sejam de uma ou de outra maneira.

Ou seja, meu descontentamento surge a partir de minhas expectativas, e expectativas dificilmente condizem com a realidade. Ao mesmo tempo, o desapego ajuda a lembrar que — repito — nós temos o costume do descontentamento. E isso é algo de que podemos nos desapegar.

Se nós deixamos as coisas mexerem com nosso contentamento, algo está errado. Não sei quanto a vocês, mas eu prefiro estar em controle sobre meu bem-estar. Já dizia William Ernest Henley em seu poema Invictus:

"Eu sou o mestre do meu destino; / Eu sou o capitão de minha alma."

Os indianos tem um nome legal para esse contentamento. Para eles, é um preceito ético conhecido como "Santôsha".

Santosha significa… "contentamento". Sim, não tem segredo. Mas o que é mais legal é o que se diz sobre ele. DeRose escreveu sobre ele, baseando-se em textos de Pátañjali. Destaco um parágrafo que para mim é especialmente interessante:

"O contentamento e sua antítese, o descontentamento, são independentes das circunstâncias geradoras. Surgem, crescem e cingem o indivíduo apenas devido à existência do gérmen desses sentimentos no âmago da personalidade."

E algo que provavelmente todos nós já ouvimos, mas que nem sempre levamos tão à sério, é a capacidade de rirmos de nós mesmo. Nós somos ridículos, gente. Não vamos fingir que não. E ter essa realização é fantástico, porque ela nos permite ver a maneira como que usamos descontentamento, manias e vícios e os tomamos como parte de nós mesmos.

Sejam mais contentes, pessoal. Eu estou exercitando isso e só estou ganhando.

Só para finalizar, vale destacar, porém, que o contentamento que falo aqui não é nem de longe a falta de questionamento ou a aceitação de qualquer situação. Ele não é a ausência de ação ou de inquietude, revolta ou novidade. Essas coisas podem e devem coexistir com o contentamento. Cito DeRose mais uma vez, aqui:

"A observância de santôsha não deve induzir à acomodação daqueles que usam o pretexto do contentamento para não se aperfeiçoar."

Boa sorte.

Ah, e se você conhecer alguém que sofrer de depressão, faça um favor a essa pessoa e NÃO mande este texto como uma ideia de cura ou remédio. Depressão é algo a ser tratado, não é apenas descontentamento! No caso de depressão, recomendo que busque profissionais qualificados e não textos da Internet :)