Constantes

Há pouco tempo eu descobri uma coisa interessante sobre ciência, que me fez pensar um pouco sobre pessoas.

 

Mas antes de pessoas, falemos da descoberta e de ciência. Prometo que será rápido e indolor.

Eu descobri em um artigo que a velocidade da luz no vácuo não é uma constante, como pensávamos.

Não sei o quanto vocês sabem de física – eu não sei muito – mas isso é algo importante. Se a luz não é uma constante, muito do que conhecemos hoje na física vai por água abaixo, ou, pelo menos, sobre algumas mudanças.

E=mc², por exemplo. Aquele “c” ali é a velocidade da luz no vácuo. E ela era considerada uma constante até hoje. Então, pode ser que muito da física derivada disso, que define, entre outras coisas, o que é energia, possa não ser a mesma a partir de agora.

A distância de estrelas à Terra, por exemplo, é medida pela distância percorrida pela luz. Se a constante de velocidade é outra… pode ser que estejamos errando a distância de muita coisa.

Vocês podem ler a ciência mais complexa e todos os detalhes aqui (em inglês).

E agora falemos de pessoas, que são um assunto que tendo a gostar tanto quanto ciência, ainda que entenda bem pouco dos dois.

 Data entende de humanos e de tecnologia. Mais ou menos.

Data entende de humanos e de tecnologia. Mais ou menos.

 

Você já parou para pensar quais são as constantes em sua vida?

Obviamente, a velocidade da luz (ainda que não no vácuo), mas prometi que não íamos falar de ciência mais. Não estou falando de constantes científicas. Estou falando de qualquer coisa que seja constante.

Eu pensei que, se a ciência consegue errar – e convenhamos, há um histórico considerável de erros científicos, enganos e, claro, fraudes -, e agora algo que dávamos como 100% certo, algo constante mudou… o que isso diz sobre o que nós tomamos como constante, certo e inquestionável em nós mesmos, nas pessoas que conhecemos, no jeito que levamos nossas vidas e na sociedade como um todo?

A primeira reação que eu tive, e que imagino que seja fácil de ter aqui, foi pensar que “Aff Rodrigo, mas que exagero. Ninguém se leva tão à sério. As pessoas questionam, as pessoas lêem. Elas mudam.”

Mas depois eu notei que não é bem assim. Não sempre, pelo menos.

Quantos caminhos você tem para sua escola, para seu trabalho, para os lugares que você mais gosta de (ou tem que) ir?

Vou apostar que existe um caminho favorito.

Existe um “caminho favorito” em tudo na vida. Nosso cérebro não se dá bem com mudanças, isso é algo cientificamente provado, como você pode neste artigo aqui (em inglês).

Temos uma facilidade incrível de fazer atalhos para todo e qualquer raciocínio. Como você pode ter lido no link acima, Wray Herbert emprestou a palavra “heurística” para explicar esse processo de “atalhos” de raciocínio e comportamento.

Óbvio, alguns foram (e ainda são) úteis de um ponto de vista evolutivo. Afinal, se nosso cérebro achasse que fogo não queima a cada vez que o visse, estaríamos perdidos. Mas os atalhos não param aí.

Os atalhos fazem com que entendamos o mundo e nós mesmos de maneira simples.

Que jogue a primeira pedra quem nunca ouviu (ou falou) uma das frases a seguir:

Eu sou assim…
Eu faço assim…
Comigo é…
Isso é assim…
Ele/Ela é sempre assim…
Todo/Toda ______ faz isso…
Isso é coisa de _______
Sempre foi assim…

Geralmente, quem fala uma dessas frases realmente acredita no que está falando. Essas são frases fortes, carregadas de uma certeza que muitas vezes não aceita mudança. São pequenas “constantes” que assumimos.

E claro, ao mesmo tempo que você não vai poder mudar coisas imutáveis – sua altura, sua data de nascimento, entre poucas outras -, especialmente quando qualquer uma das frases acima se refere a um comportamento, ela é perigosa.

Em parte, ela é perigosa porque ela é verdade. E em parte porque ela pode ser falsa.

Para a pessoa que acredita que algo é constante e tem plena certeza disso, é difícil convencê-la do contrário ou de qualquer outra opção. Isso porque existe outro efeito bizarro da psicologia humana que entra no jogo, que se chama Viés de Confirmação.

Em poucas palavras, o que você achar que está certo, está certo. Você vai achar evidências para provar seu ponto enquanto ignora outras evidências contrárias.

Nas palavras da matéria do link logo acima, de Carlos Orsi: “O vício em confirmação tem raízes no modo como as emoções funcionam: quando algo reforça nossas crenças, nos sentimos triunfantes; quando são desmentidas, nos sentimos frustrados ou até ofendidos.”

E voltando mais diretamente para nosso papo de constantes e lembrando da Heurística, isso tem um efeito pessoal e um efeito em sociedade.

O efeito pessoal é uma resistência à mudança e, muitas vezes, ao aprimoramento. Se você tem certeza de que o mundo conspira contra você, sua predisposição a ele será negativa. Se você pensa que nunca poderá escrever porque um livro seu foi recusado, você nunca se esforçará de verdade para escrever outro livro. Pode ser simples assim.

Então tente encontrar essa constante. Tente trocar o “sou” por “estou” e “é” por “está”. O “faço” por “estou fazendo” e o “sempre é” por “pode ser”.

Isso vai de coisas mais graves como um tratamento médico cansativo para um problema crônico até algo simples como a desorganização da sua mesa. Se você aceita as coisas como elas estão, não é difícil de acreditar legitimamente que são assim que elas são.

Com isso em mente, vale pensar no lado social do problema.

Quantas vezes você não ouviu uma das frases acima relacionada a outra pessoa ou, pior, a um grupo de pessoas?

O problema de aceitar qualquer constante criada à partir dessa heurística do cérebro é que é fácil imaginar que os outros são bidimensionais. E o viés de confirmação joga no seu colo apenas mais evidências que comprovam tudo que você acredita, ainda que só para você.

Lógico, isso é mais fácil de ver nos outros: A partir do momento que qualquer pessoa afirmar que algo é de um jeito e não de outro, como uma lei universal, ou como uma constante, questione. Pergunte o que ela quer dizer – ou não pergunte, nem sempre é possível, relevante ou aceitável, mas tente entender em seu íntimo.

Porque essa pessoa pode estar trabalhando dentro de uma mentalidade tendenciada pela heurística. Ou – e aqui a mídia, os grandes (e pequenos e médios e pseudo-) líderes, personalidades e comunicadores são excelentes nisso – a pessoa sabe que falar em uma linguagem de “constante”, de estereótipo, é algo que funciona. “Povo”, “Oposição”, “O outro partido” são tão bidimensionais como falar “aquele cara lá”.

Mas não pare o questionamento aí. Eu disse que é mais fácil questionar outra pessoa, mas por que não você? Questione o que você acha que é certo, e questione quem concorda com você. O resultado pode ser surpreendente.

O Víes de Confirmação por vezes acaba fazendo com que possamos cair em argumentos que apenas servem para confirmar eles mesmos. Existe até uma falácia argumentativa que gira em torno disso:

É por isso que brigas entre partidos não terminam. É por isso que preconceitos não terminam. É por isso que guerras não terminam. Porque para o nosso cérebro parece muito mais lógico o caminho mais rápido, mais simples, e ele se sente bem de fazer com que as coisas continuem como são. A constante que ele está acostumado a trabalhar. E por isso é tão fácil de aceitar a palavra de quem concordamos e discordar da de quem não está alinhado com o que falamos.

Desconfie. Questione.

Nada é simples, nada é bidimensional. Nada é constante. Nem você, nem mais ninguém, nem nada, especialmente o que é inventado pela humanidade.

Comece por você. Não reproduza essas “constantes” e tire-as de seu comportamento. Tirar ou trocar um hábito e/ou processo de pensamento pode ser trabalhoso, mas a cada vez que você o faz, mais fácil fica. E você não vai querer parar.

Deixo uma lição de casa. Sério:

1- Pense agora mesmo: que hábito você abandonaria? Tente abandoná-lo por um mês. Se não conseguir pensar em algum, abandone, como um exercício, um hábito específico. Se for destro, tente abrir seu carro com a mão esquerda com um mês, em vez da direita. Tente mudar sua rota para o trabalho. Observe os resultados. Observe o tempo que seu cérebro demora para se habituar à mudança.
1b) Se o hábito que você abandonou não é nocivo, experimente voltar com ele. Veja qual a reação de adaptação do seu corpo ao que já era conhecido.

2- Assista um telejornal. Veja uma notícia, de preferência de fundo político. Pense: o que essa notícia quer dizer? Quem se beneficiaria por ela? Quem não se beneficiaria? Quem é o público-alvo dessa notícia? Quem não é? Existe algum motivo para retratá-la desta maneira e não de outra? Se não um motivo explícito, existe uma razão? Repita isso para o resto de sua vida e escolha aceitar ou não a visão de uma notícia da maneira mais isenta possível.

3- Escolha outra religião que não a sua (se não tiver religião, o leque de opções só aumenta) e tente entender por que eles discordam de você e porque você discorda deles. Evite respostas simples. Desenvolva um raciocínio real. Depois, pegue sua própria crença (ou falta de) e elabore uma defesa contra e uma a favor dela. Tente gerar o máximo de exercícios. Repita de quando em quando e, se achar necessário, mude a crença.

4- Continue fazendo isso com tudo, sempre. Esqueça as constantes. Esqueça as respostas fáceis.

Até a próxima, galera o/