Você não deveria querer ser o “crush” de ninguém, e não deveria levar seus próprios “crushes” a sério

Vamos falar sobre relacionamentos?

Sim, este é um post com conselhos amorosos, mas também não deixa de ser sobre psicologia e sociologia.

Caros leitores, eu sustento que você não deveria querer ser o crush de ninguém.

Como Sam, do livro/filme “As Vantagens de Ser Invisível” sabiamente diz, em uma das melhores pérolas de sabedoria sentimental da literatura contemporânea:

Tradução de Ryta Vinagre: “É só que eu não quero ser a paixonite de ninguém. Se alguém gosta de mim, eu quero que goste de mim de verdade, e não pelo que pensam que eu sou. E não quero que carreguem isso preso por dentro. Quero que mostrem para mim, para que eu possa sentir também.”

Tradução de Ryta Vinagre: “É só que eu não quero ser a paixonite de ninguém. Se alguém gosta de mim, eu quero que goste de mim de verdade, e não pelo que pensam que eu sou. E não quero que carreguem isso preso por dentro. Quero que mostrem para mim, para que eu possa sentir também.”

Mas calma aí – vamos definir bem as coisas. O que eu quero dizer quando digo “Crush”?

Não é disso que estou falando.

Não é disso que estou falando.

 

“Crush” é um termo complicado. Uma tradução próxima seria a “quedinha” que se tem por alguém, ou “estar caído por”, típico sentimento adolescente, apesar de não exclusivamente adolescente. A edição nacional do livro, publicada pela Editora Rocco, deixa “Crush” como “Paixonite”.

Esse chega perto, mas nenhum dos dois termos explicam direito o que é “Crush”, apesar de todos nós sabermos de um jeito ou de outro o que é.

Um jeito de entender o sentimento é como aquela sensação de atração idealizada que todos nós já experimentamos. A pessoa é “perfeita”, ou tem alguma característica muito específica que nos atrai e isso já é o suficiente para que consigamos ver um futuro resplandecente, além do arco-íris com ela/ele.

Qual o grande problema disso? Como eu acabei de dizer, é uma atração idealizada. Ou seja, é uma idéia do que você quer, sobreposta àquela pessoa que possui um ou mais pré-requisitos mínimos para que você sinta atração. Resumindo: Você não se apaixona pela pessoa, mas pela idéia que tem dela.

Essa frase já rodou muito por aí, e aparentemente acabou sendo popularizada por um diálogo do filme “Escritores da Liberdade”. Eu não assisti ainda, então nem sei os detalhes além dessa frase.

Meu ponto é que exatamente por se tratar de uma idealização, temos uma chance muito maior de decepção, geralmente para ambos lados. Crush não é “paixão” e muito menos “Amor”.

Em relacionamentos, nós dependemos largamente de socialização e flertes. E como parte dessa dinâmica realmente entra exacerbar nossas características mais desejáveis. Nós temos que ser atraentes, de alguma maneira.

Não vou fazer nenhuma crítica ao jeito que isso funciona, apenas quero que todos pensem: quantos de vocês já chegaram para um(a) desconhecido(a) em uma balada de música Techno e o(a) ganharam com cantadas como “Oi, eu adoro filmes impressionistas alemães. Nós bem que podíamos sair daqui e ir lá em casa ver minha coleção…”.

…gata.”

…gata.”

Não fazemos isso porque simplesmente não é assim que as coisas funcionam. Nós somos programados para reagir a estímulos mais simples antes de qualquer coisa. Por isso dependemos tanto de aparência e contexto.

Então já que é difícil chegar direto mostrando o que você realmente gosta ou como é na maior parte do tempo, nós fazemos um resumo socialmente aceitável de uma persona.

Isso acontece como parte do seu dia-a-dia: se você gosta muito de cinema, por exemplo, você irá a cinemas, falará sobre filmes e, às vezes, pode usar roupas que mostrem suas obras favoritas, ou comprar objetos e decorar seu quarto com inspirações cinematográficas. Isso é um processo mais ou menos natural e, de certo modo, “todo mundo faz”.

“Mas Rodrigo,” dirá você, insultado(a). “Eu sou muito mais do que só meu gosto por cinema! Eu também gosto de café, camundongos, jujubas e LPs raros de ukulele!”

É exatamente esse o meu ponto, meu(minha) caro(a) amante de coisas diversas!

Em média, ninguém pode ser resumido(a) em apenas um interesse, ou uma faceta. Você não é o “cara que gosta só de cinema”, e também não é a “pessoa que é boazinha o tempo todo”, ou “a pessoa que sempre fica triste nos dias de chuva”.

E espero que também não seja o “Cara com costeletas de estrela, cartola e iguana.”

E espero que também não seja o “Cara com costeletas de estrela, cartola e iguana.”

Você pode, com certeza, ter um grupo de interesses que o(a) coloque em certos grupos/tribos sociais, como “Hispter”, “Nerd”, “Taxidermistas amantes de Jujubas” ou “Serial Killers”. Mas você não é apenas uma “pessoa padrão” definida por esse grupo (e se for, há alguma coisa muito errada com você).

E é aqui que voltamos ao cerne da questão: o “Crush”, como idealização de uma pessoa, se baseia principalmente nesse tipo de caracterização social – uma idéia geral atribuída a ela.

You got your freshmen, ROTC guys, preps, J.V. jocks, Asian nerds, Cool Asians, Varsity jocks Unfriendly black hotties, Girls who eat their feelings, Girls who don’t eat anything, Desperate wannabes, Burnouts, Sexually active band geeks, the greatest people you will ever meet, and the worst. Beware of plastics. – Mean Girls / Garotas Malvadas

Lembra, na escola, das garotas e dos caras populares, e de como eles eram vistos (“idealizados”) como “desejáveis”? Para algumas pessoas, era quase como se fossem celebridades, exceto que tinham alguma chance com eles(as). E nem é preciso ver muitos filmes colegiais norte-americanos para entender que havia um esforço consciente por parte dos adorados (e dos adoradores) para manterem esse status de adoração, certo?

O que estou dizendo é: tem gente que FAZ QUESTÃO de trabalhar uma persona apenas para se tornar desejável. Isso é ainda socialmente recomendado, direta ou indiretamente. E as outras pessoas buscam essas pessoas e desenvolvem crushes em cima delas.

(Insira aqui um episódio de desenho animado em que o/a protagonista tenta se juntar a um grupo popular, depois aprendendo uma lição de vida sobre os valores da amizade verdadeira versus status social)

Novamente, é muito mais difícil essas pessoas mostrarem o que realmente são do que mostrarem uma coisa que os outros querem ver, seja ela verdadeira a eles ou não. Às vezes, é mais fácil mostrar um lado falso, mas interessante, porque o que se tem por dentro é chato, ou pelo menos a pessoa acha que é chato (a discussão sobre auto-estima fica para outra vez).

E assim, nascem algumas fórmulas sociais engraçadas mas funcionais, das quais separei dois exemplos que considero básicos para entender a “fórmula de como se tornar o crush de alguém” (ou de “como facilitar o processo”):

1- “O Cara do Violão”
(Variações possíveis: “O Cara da Guitarra”, “O Cara do Baixo”, “O Bateirista”, “O Cara que tem uma Banda”, “O Cara que Toca em uma Banda”, “O DJ”, entre outros)

Eu cresci ouvindo e continuei a ouvir em minha vida adulta as pessoas “brincarem” que “o melhor jeito de pegar mulher é saber tocar violão”. E o pior é que muitas pessoas acham que isso funciona.

O “Cara do Violão” ouviu a mesma coisa, ou teve a idéia sozinho, e achou que seria muito legal aprender a tocar um instrumento para comer cortejar garotas.

Ele não pretende se tornar um músico seriamente, e tocar não é exatamente um hobby. Mas ele está sempre com seu violão em festinhas, acampamentos e coisa do gênero, sabendo tocar no máximo meia dúzia de canções ao redor da fogueira: entre elas, geralmente alguma balada de sucesso recente, fácil de tocar, e possivelmente “Pais e Filhos”, da Legião Urbana.

Como as outras pessoas não sabem que ele só está fazendo isso porque “quer comer você”™, podem enxergá-lo com certo status: o fulano é músico! E ele vira o popstar da turma (ou roqueiro, ou MPBzeiro, ou seja lá qual for o gênero).

E adivinha? Isso mesmo, Crushes surgem.

O lado oposto acontece por um mecanismo parecido – se você toca um instrumento “chato” [sic] como violino, pode ser execrado, a não ser na rara situação em que você é um virtuoso, e ainda assim não existem garantias.

Interessantemente, se você é uma mulher que toca um instrumento, especialmente uma guitarra ou baixo elétrico, prepare-se para ter uma legião de fãs, porque isso é coisa que “Mulher não faz” [sic], tornando você algum tipo de pássaro raro.

Mais ou menos assim.

Mais ou menos assim.

Quer outro exemplo?
2- O(a) Nerd da Moda / O(a) Hipster da Moda
(Obs.: Não vou me alongar em definições ou comportamento sobre o que define Nerds, Geeks e Hipsters. Para isto, vejam ESTE VÍDEO)

Este funciona de um modo parecido para homens e para mulheres. Mais de uma vez, quando pessoas descreviam namorados/namoradas ideais, já ouvi pessoas falarem “Queria uma menina nerd”, “Adoro hipsterzinhos” ou coisa parecida.

Como eu disse antes, isso até que faz sentido, uma vez que procura-se um aglomerado de características que PODEM ser resumidas em uma definição do tipo. Só que existem alguns problemas na brincadeira:

a) Algumas pessoas tem o “Nerd”, “Hipster” ou qualquer outra definição como único pré-requisito, ou um dos poucos. Se encontram alguém assim, e a pessoa muda, um choque pode acontecer;

b) Como há a demanda, há a oferta, levando a um levante de pseudo-nerds e pseudo-hipsters que tem um novo mercado de afeição à disposição. Não serei bairrista aqui – sou a favor do aumento da oferta de roupas xadrezes, filmes, games, animações e café -, mas meu ponto é que parte de nós podem estar escondendo o que são em troca de uma imagem que “vende mais” e assim mais máscaras estão sendo colocadas no caminho dessas pessoas;

Não estou falando desse tipo de máscara.

Não estou falando desse tipo de máscara.

c) Há o efeito “pássaro raro” novamente: Já vi acontecer mais de uma vez – alguém que não faz parte de uma “tribo” fica louco(a) por alguém de outra, porque a idéia da tribo é interessante. Mas quando a outra pessoa faz algo que concorde com a tribo mas discorde dele(a), surge um problema;

Especificamente para “garotas nerds” o problema é mais grave por uma questão de misoginia infinda.

Existem garotas nerds. Sim, existem. (Por favor, chega de piadas idiotas sobre como elas são criaturas mitológicas.) Só que como o “mercado” nerd é ainda considerado tipicamente masculino, elas ainda são tratadas como um objetivo em si só – o sonho dourado de ter uma “namorada nerd”.

Afinal, que importa o resto se ela for nerd como você? Ela tem os mesmos interesses, não vai te zoar porque você é nerd, não vai pisar no seu lanchinho e muito menos no seu coração… Certo?

(Não me façam postar novamente a plaquinha de sarcasmo.)

E os finalmentes.
Curto e grosso:

Por que é ruim alguém se tornar crush de alguém?
1- Não é amor, ou pelo menos não “Amor”, com A maiúsculo. É algo próximo de uma idolatria;
2- Se você está forçando algum aspecto para conquistar, você consegue manter isso por quanto tempo? Você pode não conseguir suprir a demanda do papel que criou;
3- Se não está inventando nada, você *realmente* acha legal alguém gostar da idéia que eles tem de você? Entenda que “perfeição” não existe, e se alguém achar que existe, as decepções só aumentam quando encontrar as falhas;
4- Se você está enrolando alguém propositalmente, saiba que você é uma pessoa horrível.

Ou, alternativamente: Busque ser interessante o suficiente para, caso alguém tenha um crush em você, encontre algo mais do que a razão que gerou esse crush.

Por que é ruim você ter uma crush em alguém?
1- Você não está respeitando nem você nem a outra pessoa, pois pode estar simplificando o que ela é;
2- Você provavelmente não está vendo as coisas como são. E por mais que seja bonitinho querer ver a outra pessoa como perfeita, o mundo real não funciona assim;
3- Você provavelmente está colocando a outra pessoa em um patamar acima de você. E desigualdade não é legal para nenhum relacionamento.

E você? Já parou para pensar porque você gosta de quem gosta? Deixo pra vocês uma ótima tirinha do Valente, do genial Vitor Caffagi, pra fechar este post que já está longo demais: