O que acontece enquanto sua vida acontece?

Arcano "O Carro" — arte de Igum Djorge

Arcano "O Carro" — arte de Igum Djorge

Eu gosto de escrever. E gosto de viver. Essas são duas coisas que tenho em comum com muitas pessoas, ainda que nem todas tenham uma ou outra dessas características, ou nenhuma delas.

Mas o que mais eu tenho em comum com outras pessoas? Eu poderia listar, mas este não é um espaço para biografia e, aliás, essa é uma biografia que não seria só minha, pois envolveria uma imensa comparação, bem difícil de fazer.

Eu sei essas coisas. Eu sei porque elas são parte do que define meu interesse principal e primordial: eu mesmo. Veja, eu não sou incomum nisso. Na verdade, acredito que essa é a característica que tenho mais em comum com todas as outras pessoas — todo mundo tem muito interesse na própria identidade, mesmo que não necessariamente goste dela.

Isso acontece simplesmente porque nós só vemos a vida em termos da nossa narrativa pessoal. Tudo que acontece na vida, no nosso ponto de vista, acontece em relação a nós mesmos, mesmo que seja sobre os outros, mesmo que nós sejamos os personagens secundários da vida de outras pessoas.

E isso acontece com todo mundo.

Isso faz uma coisa muito engraçada com a nossa cabeça, pois a partir do momento em que descobrimos algo sobre outras pessoas que não sabíamos, nós invariavelmente descobrimos algo sobre nós mesmos, que é, no mínimo, nossa reação em relação àquilo que descobrimos delas. Se descobrimos que uma pessoa gosta de algo que gostamos, ou o contrário, isso evoca sentimentos e racionalização. Se alguém pensa parecido ou diferente de nós, isso evoca sentimentos e racionalização. Até mesmo a indiferença nos faz diferença, às vezes mais do que qualquer reação ativa.

Quando você é criança (ou mesmo adolescente, ou adulto) e vê uma professora fora do ambiente da escola, no supermercado, você pode ter a súbita realização de que ela é uma pessoa complexa, com uma vida que vai além da sua, do que você vê na sala de aula, e sua maneira de vê-la muda, mas quem mudou não foi a professora, foi você.

Além de gostar de escrever, eu gosto de ler. E enquanto leio e enquanto escrevo, já me deparei com muitos personagens. Entendo que, geralmente, o bom personagem é aquele que existe com sua própria história, mesmo que essa história nunca seja contada inteiramente, porque é assim que as pessoas existem. Todos carregamos um passado e, misticismos à parte, levamos um futuro que acaba em nossas mortes, mas nós nunca saberemos completamente o passado, o presente ou o futuro de qualquer pessoa que não nós mesmos — e, de certo modo, nem nós mesmos.

Há mais de um ano venho me encontrando periodicamente com meu bom amigo Pedro Hutsch Balboni, criando pontos de intersecção nas linhas narrativas de nossas vidas enquanto discutimos uma história que coloca mais linhas narrativas de vidas, ainda que vidas ficcionais.

Nossos encontros deram origem a um livro chamado “Dito Pelo Não Dito”, que conta a história de uma jovem chamada Joana. Seu namorado, Mauro, entra em um tipo de coma e a única maneira que Joana tem de acordá-lo é se descobrir 10 informações sobre ele que ela não sabia, de 10 pessoas que têm bons motivos para não contar para ela.

O conflito de Joana inevitavelmente me fez pensar sobre minha própria noção de realidade. Joana tinha uma noção de mundo clara, mas a ideia de que Mauro pode ter motivações, ideias e talvez toda uma vida interna (e externa) que ela não sabia que existia lhe deixa em crise. Mas essas informações já existiam — o conhecimento delas nada muda em Mauro (exceto, claro, em relação ao coma), mas mudam tudo para Joana.

Uma maneira de entender “intimidade” é o conhecimento pleno do que uma pessoa faz com seu tempo e do que ela pensa, mas ao mesmo tempo não é só isso. Podemos saber tudo sobre uma celebridade, até mesmo o que ela não quer que saibamos, mas isso não é intimidade. O vazamento de sua intimidade não nos torna íntimos dela. A intimidade é o que acontece quando esse conteúdo é dado de maneira natural e, mais importante, com permissão. Invariavelmente, a jornada de Joana levanta a dúvida do que realmente conhecemos das pessoas que julgamos íntimas.

Não só isso, conforme ela caminha pela cidade e encontra essas figuras, entendemos que os bons motivos para não informá-la de nada muitas vezes significam muito apenas do ponto de vista dos personagens. As intenções de Joana são indiferentes para o resto do mundo. Todos eles têm seus próprios motivos e, do ponto de vista de Joana, eles são apenas algo que surge, uma interrupção em suas narrativas.

Conforme eu e Pedro montávamos o projeto, a certa altura ele sugeriu algo que, depois de certos ajustes, nós utilizamos: essa não podia ser uma história contada a quatro mãos. Em uma história de encontros e desencontros, do dito pelo não dito, sobre o que entendemos de realidade e sobre o que enxergamos como verdade, não podíamos deixar de demonstrar que a realidade nunca é expressa da mesma maneira para todos. Assim, convidamos 10 outros autores para contar a história de Joana, cada um deles tomando para si um pedaço do enredo que pensamos e, com isso, ao menos um personagem dos encontros de Joana.

Na ideia do cruzamento de passado, presente e futuro — ou, se quiser, “destino” — enxergamos o Tarot, correspondendo combinações de suas cartas a cada um dos capítulos. A consulta a qualquer oráculo sempre depende de uma série de elementos, incluindo o passado e o presente do consulente, mas existe sempre o inescapável fator de que tudo é em relação a algo. Uma ação é feita em relação a elementos externos a nós ou em relação a nós mesmos. Por isso mesmo, nós convidamos o ilustrador Igum Djorge para tornar realidade os símbolos que falam do presente — ou de cada um dos "presentes" — de Joana.

Para falar de vidas que se cruzam, decidimos cruzar vidas. Para falar de passados e futuros que não os nossos, pedimos experiências emprestadas. E, em nossa brincadeira de deuses criadores, os leitores entrarão como o décimo-quarto elemento, com a leitura, pois o leitor sempre é tão criador quanto.

Menos por poesia e filosofia e mais por necessidade, este livro foi colocado em financiamento coletivo na plataforma Catarse. Só que não pude deixar de ver a poesia e a filosofia nisso a partir do momento que começaram a chegar os apoios de amigos, familiares e de completos desconhecidos. Algo em mim, um tipo de engrenagem, se deslocou lentamente e meu mundo pareceu diferente, para não dizer maior.

Nunca foi sobre todo mundo, mas sobre cada um de nós. Cada um dos “eu”s que invariavelmente muda os outros “eu”s. Há uma beleza nessa individualidade coletiva, na rede de todas essas linhas narrativas, em todos esses protagonistas. Claro, eu não poderia deixar de convidar vocês, tanto por poesia, filosofia e necessidade. Se quiser saber mais sobre “Dito Pelo Não Dito” e fazer parte disso, com um nome em agradecimentos e, claro, com sua leitura, basta clicar aqui.

No mínimo, este livro irá divertir. Mas eu espero que, como eu, todos consigam ir acima disso, consigam pensar até onde o mundo realmente existe quando não estamos olhando, quem realmente as outras pessoas são e tudo que podemos mudar meramente por existirmos.