Nós somos cruéis com o passado

Eu gosto muito de livros. Eu gosto de ler, gosto de escrever, mas gosto muito de livros como objetos, também. Fale o que quiser — para mim, nenhum livro digital, nenhum blog, nenhum audiolivro (por mais que os ame) irá superar segurar um volume na mão, sentir seu cheiro, seu peso, sua textura.

Mas existe algo que eu amo em especial em livros, que é sua história. Cada livro é um retrato de um exato momento, e um momento de muitas coisas. Do autor, da editora, da história do mundo, da tecnologia de produção, da linguagem e do dono ou do histórico de donos daquele livro.

Lógico, formatos digitais ou em áudio também tem muitas dessas marcas, mas elas não têm qualquer sinal do dono. Do mesmo modo, vários outros objetos também tem várias dessas características, mas não tem todas. Talvez alguns objetos tenham algumas características únicas nesse sentido histórico que livros não tem, mas é a combinação das características do livro e a maneira como elas se manifestam nele que sempre me chamam a atenção.

Um livro que não seja físico não perde páginas, não ganha marcas, anotações, machucados, cheiros, manchas. E mesmo que continue intacto, não ganha contexto. Ou melhor, ganha, mas não da mesma maneira.
Minha coleção de livros tem inúmeros livros que inúmeras outras pessoas também têm. É um fato inegável, já que livros são impressos em grandes quantidades, mas eles não são genéricos pelo uso que fiz deles e pelo contexto em que eles entram. Eu sou daquele tipo obsessivo que toma cuidado para não marcar nenhuma página, que não permite que façam orelhas ou riscos ou marcações. Mas eu sei que, se qualquer pessoa abrir meus armários, verá o contexto de quem eu sou a partir do que eu leio, apesar do meu cuidado excessivo e especialmente por ele.

Qualquer um que entrar em minha casa poderá ver os quadrinhos e os livros, em uma coleção que mistura “Harry Potter” e “O Guia do Mochileiro das Galáxias” com uma cópia de um tratado de Yôga, livros sobre serial killers, literatura clássica brasileira, light novels japonesas, livros de arte sobre pin-ups, livros de visões políticas e religiões diversas, obras sobre a sociedade e sobre o corpo humano, guias de museus, cordéis, folhetos e todo tipo de material escrito que eu conseguir reunir. Esses livros, seus números de edições, suas idades, seus estados - todos contam histórias sobre quem eu sou, fui, e, indiretamente, quem eu serei.

Eu não sou do tipo que vende ou doa livros. Eu não vendo ou doo muitas de minhas coisas, o que mais de uma vez já suscitou piadas que eu me tornaria um acumulador ou de que, um dia, seria encontrado soterrado por minhas posses. Piadas à parte, esses momentos de doação ou venda acontecem, mas realmente, para mim, são raros.

Eu observo entre os meus amigos e conhecidos, que qualquer doação ou venda de material impresso é acompanhada de mudanças. Uma mudança de casa, uma mudança de planos, uma mudança de vida. Eu gosto de pensar que há uma beleza nisso. Como vejo livros e certas posses como extensões de quem somos, há algo ao mesmo tempo gratificante e melancólico quando as pessoas se desfazem de livros. Sempre me parece como parte de um ritual de passagem. Ao mesmo tempo, parte de mim fica triste com isso, como parte de todos nós fica triste com mudanças.

Acho particularmente triste quando os livros vendidos ou doados são coleções de leitores que faleceram. Mas eu compreendo — por vezes, a existência daqueles objetos como extensão dos antigos donos é algo difícil de lidar, por diversos motivos. E mesmo para a vida prática o motivo é mais claro - uma biblioteca é algo volumoso, algo que ocupa muito espaço, de pouco valor para quem não lê. Entendo as vendas, entendo as doações, entendo a distribuição daquele restinho de identidade.

Mas ainda mais triste quando esses livros são descartados. Acho que é uma crueldade. E isso eu não entendo de maneira alguma.

Sou da opinião de que mesmo o pior dos livros tem seu valor, nem que seja como um exemplo do que não fazer, do que não dizer e, até, em casos, do que não pensar. Quando um livro é descartado, por qualquer motivo, eu sinto que perdemos algo coletivamente. Tudo que aquele livro era, todas as pessoas que se envolveram com ele e, especialmente, seu dono ou donos, são descartados conjuntamente.

Quando o dono é vivo e acontece o descarte, eu já acho um desperdício. Mas o descarte de livros de falecidos é quase criminoso para mim. Pode ser que seja apego, pois penso que odiaria que fizessem isso com minha coleção. Talvez parte disso realmente seja, mas sei que outra parte também é uma certa tristeza existencial.

Minha paixão por livros já me fez comprar e ganhar livros das maneiras mais inesperadas. Por vezes, eu também já cheguei a achar aleatoriamente, e diversas outras vezes revirei caçambas, cestos de lixo e espaços de reciclagem para salvar o que pudesse de material impresso. Eu nunca cacei — geralmente essas oportunidades surgiam.

Nos últimos dois anos, consigo pensar em várias situações em que consegui livros de maneiras inesperadas, mas três delas me chamam atenção porque eram claramente descartes que contavam muito bem partes da história de seus antigos donos.

A primeira foi em frente a latas de material reciclável em um supermercado. Salvei coleções de volumes de literatura brasileira, versões traduzidas de autores franceses e alemães e diversos livros de medicina que, mesmo respingados de iogurte de outra sacola de recicláveis, fiz questão de levar e limpar.

Outra coleção foi em uma mudança em minha rua. Um vizinho morreu e muitas de suas posses foram diretamente para uma caçamba de metal, logo ao lado de minha porta. Resgatei mais literatura mundial, algumas coisas em língua estrangeira, mas tive que deixar para trás imensas coleções de livros de direito, tanto porque não teria uso quanto pelo fato que, ainda que interessantes, estavam demasiado feridos por outros entulhos e pela umidade.

Finalmente, poucos meses atrás, um antiquário fechando próximo ao meu trabalho me garantiu um porta-malas cheio de literatura em português, francês e até japonês, incluindo desde livros de arte até ficção, não-ficção e diversos sobre religiões e espiritualidade. Sem falar, claro, de uma coleção de fitas cassete acompanhando livretos sobre música clássica.

Não vou mentir e dizer que não fiquei feliz com esses livros. Como bom bibliófilo, comemorei cada uma das conquistas, mas era folheando as páginas que eu encontrava uma sensação que eu tenho dificuldade de descrever. Às vezes era uma alegria, às vezes tristeza.

Pensando no contexto de cada uma das coleções, eu entendia um pouco de cada um de seus donos. Um médico, um advogado, um poliglota que gostava de música clássica. Olhando os livros de medicina, hoje, ainda encontro anotações desconjuntadas, pequenos pensamentos, datas, nomes e referências que se perderam, sem o contexto original da vida do médico em questão.

Aqueles livros eram, ou são, aquelas pessoas. O que resta, ou restava delas no mundo. Elas existiam através de seus descendentes, se é que existem descendentes, em suas memórias, talvez através de alguns documentos, mas aquilo também era parte delas. Por isso acho cruel que tais objetos tenham sido descartados daquela maneira.

Eu gosto da ideia de que ainda assim eu tenho parte delas. Eu gosto da ideia de que elas não tenham sido completamente perdidas, ainda que não existam mais no contexto que existiam, estando, de certo modo, efetivamente perdidos para sempre.

Eu acredito que livros não devem ser descartados. Peço a todos que não sejam cruéis nem com seus passados, nem com o passado dos outros. Mudem. Doem. Vendam. Se o descarte for inevitável, descarte. Mas sempre que possível, dê a chance para que um pouquinho desse passado possa continuar existindo.