Ao mesmo tempo dentro e fora

(Texto originalmente postado no Medium)

Peço licença a você que lê para filosofar sobre a existência. Será uma filosofia barata, clichê, do tipo que todo filósofo ou aspirante já fez, que, talvez, por existência, seja o único tipo de filosofia que há.

Pensando bem, se você não me desse licença, se fechasse este texto ou o abandonasse ou desse um jeito de evitar que eu o escrevesse ou compartilhasse, ele ainda existiria e só o fato de existir em algum lugar já muda alguma coisa. E é exatamente sobre isso que quero falar.

Eu quero falar sobre a vida. Eu quero falar sobre como a vida de cada um de nós existe ao mesmo tempo dentro e fora de nós mesmos.

É fácil pensarmos que nossa vida se limita a um começo-meio-fim, uma única linha reta que cruza com outras linhas retas, mas nossas vidas são como raízes. Nós temos ramificações infinitas que mudam tudo que tocam. E que são mudadas por tudo que tocam.

Parece óbvio, tão óbvio que chega a ser bobo, e talvez seja.

Mas pare e pense sobre o momento que você, em seu passado, conheceu alguém que você gosta. Pense na maneira que existem tantos milhares de centenas de coisas que aconteceram para que vocês se conhecessem e se gostassem, seja lá o que “se gostar” significa para esse exemplo que você pensou.

Pensar nesse tipo de coisa é algo enlouquecedor. 
Pensar em muita coisa é enlouquecedor, para falar a verdade.

Agora olhe para o presente. Ou olhe para o futuro, ainda imaginário, possível a partir de tudo que você conhece.

Imagine como qualquer uma dessas coisas pode mudar por inúmeros fatores, a partir de um único instante, um único detalhe que mudaria tudo.

Você pode ter um dia inteiro planejado e um pneu furado ou uma chuva ou uma queda de energia pode mudar todo o seu plano. E a mudança desse plano pode não ter significado algum na sua vida, ou pode mudá-la para sempre. Na verdade, mesmo não tendo significado (afinal, significado é algo questionável), vai mudar sua vida.

Nosso controle sobre a vida é pouco, e o pouco que temos é raro. Isso é assustador e, ao mesmo tempo, totalmente libertador.

O ser humano, me disseram uma vez, é um animal social. Nós não vivemos sozinhos. Hoje, somos tantos e afetamos tanto tudo e todos a nosso redor que mesmo nossa ausência faz diferença.

Nossa vida, que sempre acontece dentro de nós, dentro de nossas cabeças e percepções e nas ideias que gostamos e não gostamos de ter sobre elas, existe fora de nós como ecos de cada uma das coisas que fazemos. Nós existimos ao mesmo que tudo que fazemos e somos acontece, mesmo quando não estamos e mesmo à distância, pois cada reverberação de nós mesmos reflete em outros e gera novos ecos, inevitavelmente retornando a nós.

O que fazer com esse conhecimento?

Eu gosto muito das palavras de um homem que morreu em 11 de abril de 2007, 3 dias depois do meu aniversário de 19 anos. Esse homem nasceu 85 anos antes, em 11 de novembro de 1922, na cidade de Indianápolis, Indiana, EUA. Seu nome era Kurt Vonnegut Jr., e ele é, neste momento ao menos, meu escritor favorito.

Em um livro chamado “God Bless You, Mr. Rosewater”, Vonnegut deu a melhor resposta que qualquer um poderia dar a isso que apresento como um grande questionamento, mas que não é nada tão difícil.

O que fazer com o conhecimento de que nossas vidas são como raízes de árvores, ou como ecos, com uma multiplicidade infinita e fora de nosso controle?

Kurt Vonnegut, através de seu personagem Elliot Rosewater, responde isso quando batiza um par de gêmeos (tradução minha):

“Existe apenas uma regra que conheço, bebês — maldição, vocês tem que ser gentis.”

Kurt Vonnegut nunca me conheceu. É praticamente impossível que ele tenha me conhecido durante os 19 anos em que existimos simultaneamente no mundo e eu mesmo só vim a conhecê-lo cerca de 7 anos depois de sua morte, através de sua obra. Eu poderia utilizar outro exemplo, mas este me deixa feliz, porque é um exemplo positivo.

Kurt Vonnegut lutou na Segunda Guerra Mundial, sobrevivendo à destruição da cidade de Dresden, Alemanha. Depois de tudo, ele voltou e teve uma carreira como escritor que o coloca na lista de favoritos de muitas pessoas, como eu.

Kurt Vonnegut, em 1945, antes de ser um escritor, estava em Dresden, tomado como prisioneiro por alemães e escondido com seus colegas enquanto a cidade era destruída por um bombardeamento. Ele dificilmente pensaria que um dia afetaria a vida de tantas pessoas como afetou, muito menos de um cara qualquer no Brasil, anos depois da própria morte, que em um lampejo decidiria citá-lo em um texto sobre causalidade e a imprevisibilidade da vida, ainda que suas obras (de Vonnegut, não do cara brasileiro) falassem muito disso, nos anos seguintes.

E se a guerra, em vez de torná-lo um pacifista, o tivesse deixado amargo, triste e pessimista? E se cada uma de suas decisões fosse, a partir de então, hostil e venenosa?

Do pouco que conheço de sua história, a guerra sem dúvida o mudou, porém ele não deixou que ela o mudasse para pior, pois percebeu que seu papel no contato com as outras pessoas tinha reverberações que nunca conseguiria perceber completamente, então deveria garantir que fossem as melhores possíveis.

Então, a certa altura, ele parece ter tomado uma decisão, que eu mesmo já tomei (e me esforço conscientemente para manter) e recomendo a todos: vocês tem que ser gentis.

Obrigado pelo tempo de você que leu, bom dia, tarde, ou noite, e boa vida.