Presença
/(Ou, "Faça sua imagem na Internet antes que a façam por você.")
Portrait — Roy Lichtenstein
Você já parou para pensar no que é realmente sua presença?
Além de nossa óbvia presença física, existem maneiras mais subjetivas, mas ainda válidas, como a presença de um conceito ou imagem de nós mesmos no pensamento dos que nos conhecem.
Mas não é das ideias que representam você que quero falar, ao mesmo tempo que é exatamente sobre isso.
Conforme a tecnologia e a sociedade humana tem avançado, nossa capacidade de ter uma presença no mundo aumentou cada vez mais.
Uma conversa por Skype, Facetime, Hangouts ou qualquer outro software de videoconferência nos coloca com uma presença quase que física ao lado de amigos, familiares e desconhecidos. E ainda que não estejamos lá fisicamente, nossa presença é inegável.
Telejornais tem feito isso há tempos, de maneiras diversas. Talvez por isso mesmo, não tenhamos notado, quando se tornou comum, que isso coloca uma quebra no que normalmente entendemos por “presença”, uma vez que todo aspecto físico é excluído.
Você provavelmente já está pensando que isso começou muito antes, e é verdade. O próprio telefone, sem vídeo, já foi a possível primeira quebra do que a humanidade entende por presença, mas seu poder de quebra de paradigma é muito mais discutível. O que os olhos não veem, o coração não sente, já dizia o ditado, e uma imagem de Facetime e muito mais de mil palavras em tempo real valem muito.
Existem outras maneiras em que nossa presença perdura no mundo, e desde cedo aprendemos que ela independe de nós. Quantas figuras históricas não tiveram suas existências disputadas, com argumentos de que sua “presença” no mundo não tinha evidências o suficiente? A memória, seguida pela arte e pela escrita, foram as grandes ferramentas iniciais que garantiram nossa presença no mundo, enquanto humanos.
As coisas que fazemos, destrutivas, construtivas ou neutras, se tornam apenas efeitos se nossa presença não é conhecida. Talvez por isso tenhamos essa gana sem fim de registrar tudo, e talvez por isso mesmo que, em diversas partes da história, a presença de indivíduos ou povos tenha sido propositalmente destruída.
Mas voltando ao presente, estamos em um ponto em que cada vez mais isso mudará. Cada vez mais teremos que compreender que nossa presença será algo mais difícil de passar, pois não precisamos mais de um jornal ou revista para falar sobre nós, não precisamos escrever livros ou fazer filmes ou gravar discos para que conheçam nossas ideias. Obviamente, tudo isso ainda pode acontecer, mas nós podemos falar e fazer coisas que nós somos com uma velocidade até agora única.
Nossa crescente presença online nos colocou primeiro como comunicadores potenciais, com uma capacidade — que inevitavelmente se torna dever — de nos comunicarmos de maneiras eficazes e eficientes. O próximo passo, em que já entramos faz tempo, ainda que uma grande maioria ainda não pareça perceber, é o novo papel individual que assumimos em relação à coletividade com curadores de conteúdo.
Agora, nós não comunicamos apenas o que queremos, o que falamos, mas o que somos. A cada interação em redes sociais, mais do que apenas falarmos o que pensamos, nós fortalecemos o que nos representa, nem que seja com um “like”, e do mesmo modo reproduzimos e reforçamos com compartilhamentos e retweets e reblogs. Chegamos a um ponto em que, claro, ao mesmo tempo que dizemos “tudo isto aqui que eu posto sou eu”, inevitavelmente também falamos “é assim que vejo o mundo”, “é isto que eu quero”, “é isto que eu amo”, “é isto que eu odeio”.
Ainda que WhatsApp e outros mensageiros ainda persistam na comunicação um-a-um, na contramão dessa tendência, a nossa presença cada vez mais é sentida pelo que nós mostramos à totalidade em redes de grande alcance como o Facebook, Twitter, Tumblr, YouTube ou seja lá o que for.
Quando você compartilha um conteúdo, ainda que só para seus amigos, você não fala com dez pessoas, mas centenas. Se o seu conteúdo é público, o céu — ou a língua, ou às vezes nem isso — é o limite.
E ainda que você não se preocupe com o que compartilha, as outras pessoas se importam. Estamos na era em que, com dois ou três cliques, o conteúdo indesejado pode ser oculto, às vezes para sempre, sumindo com sua presença aos olhos daquele indivíduo, ou ao menos filtrando-a. Assim, eu lhe pergunto: qual é a presença que você quer ter?
Isso pode soar estranho, mas preste atenção que é uma pergunta séria: qual a presença que você quer ter?
Na vida “real” (ou ainda, na vida “física”), a maneira que você se veste define sua presença. A maneira que se porta. A maneira que fala. Quando falamos de um ambiente digital, mas que é cada vez mais real, e com maior alcance do que sua presença jamais poderia ter por conta própria, isso requer uma mudança de ponto de vista considerável.
Antes da era digital, muitos de nós seriam anônimos. Nossa presença em vida seria sentia por um pequeno grupo. Nossa presença post-mortem por esse mesmo, ou talvez até por um menor.
Agora, nós podemos ser vistos ou ouvidos ou lidos por qualquer um, e como dizem popularmente, “a Internet não esquece”. A possibilidade de apagarmos tudo em segundos existe, mas a captura de imagem é sempre mais rápida — escândalos e gafes registradas não faltam, provando exatamente isso. A Internet até esquece — e convenhamos, se ela não esquecer, as pessoas esquecem e não procurarão o fato vergonhoso a menos que seja conveniente -, mas o risco está no que pode ser lembrado.
Pode soar como se eu estivesse sugerindo censura ou controle de informação, mas é exatamente o contrário. O que eu sugiro é qualidade e responsabilidade. Na era do compartilhável, em que nós nos tornamos canais de comunicação, quer queiramos, quer não, se não formos canais limpos, ou ao menos canais de qualidade, nós jogaremos fora todo esse poder que nos foi dado. Nós nos relegaremos ao anonimato e ao esquecimento, auxiliado por algoritmos de qualidade de conteúdo e filtros de assuntos. Ou pior — nós teremos uma presença que não é a que gostaríamos de ter.
Mais uma vez, repito: qual a presença que você quer ter? E mais — se você morresse hoje, o que sua página do Facebook diria sobre sua memória?
Antes de próximo post, comentário, compartilhamento, ou mesmo de clicar em um “like”, não deixe de se perguntar isso.
Mas você pode levantar um ponto extremamente relevante — “e se eu não quiser participar de nada disso? E se eu não quiser produzir conteúdo e não quiser ter uma presença?” O problema é que isso já não é mais algo que está sob seu controle.
Com a informatização de tudo que vemos, isso é feito por você. Se você sair com seus amigos, ainda que não faça check-ins, publique fotos ou qualquer outro tipo de conteúdo que contribuiria para sua presença, eles podem fazer isso. Ou você pode surgir em uma foto qualquer. Me lembro de um colega de trabalho que virou acidentalmente capa de uma matéria sobre baladas de São Paulo no site de uma revista de grande circulação, simplesmente por estar em uma balada. Você não pode escapar de se tornar conteúdo.
Marcas estão percebendo isso cada vez mais agora. Não é mais possível não ter uma presença online. No meu trabalho com publicidade, frequentemente tenho que mediar o desejo de não-exposição de uma marca, de exposição excessiva e, claro, de como ela irá se colocar. Porque é inegável — se você não fala por você, alguém falará.
O pessoal do The Nib demonstrou isso muito bem com a história do cartunista Ben Garrison (https://thenib.com/the-internet-s-most-trolled-cartoonist-91a92d9b7585). Este quadrinho mostra como seus comentários políticos foram vítimas de sátiras que acabaram pintando-o como antissemita. Bastou mudar alguns elementos das ilustrações e manter a assinatura para que se criasse um Ben Garrison alternativo.
Mas não precisamos ir muito longe — estamos em uma época em que se você compartilha um conteúdo criticando um político, imediatamente partidários dele entenderão que você é oposição, e aliados entenderão que você é um deles. É impossível controlar a imagem que outros farão de você.
Mas é claro, tudo isso tem um peso próprio, que é o compromisso que você cria. A partir do momento que você tem uma presença — criada por você mesmo ou pelos outros — para as outras pessoas, você moralmente tem a obrigação de se manter dentro do padrão por ela estipulado. Se você é crítico de certos comportamentos, nunca se arrisque a qualquer mal-entendido que possa remotamente parecer que você tem um desses comportamentos.
Resumindo tudo isso em poucos tópicos, só para reforçar uma última vez:
1- Você, para o mundo, é o que você fala, faz, curte, compartilha…
2- …é aquilo que os outros falam, fazem, curtem, compartilham sobre você…
3- …e é aquilo que as pessoas (acham que) entendem de tudo isso.
(Agradecimentos a Mariana Rolin por conversas que direta e indiretamente geraram este texto :v )