Nossos 2 Minutos de Ódio

Ontem rolou um grande panelaço na cidade de São Paulo e em outro lugares, e isso me incomodou. Não, não me incomodou de uma maneira partidária – não estou satisfeito com nenhum governante atual, nem com nenhuma das opções. Mas incomodou muito mais, porque falava mais sobre o que não dá para trocar. Governantes caem, são retirados, são substituídos, são escolhidos. Mas o povo não. E o meu problema foi com o povo.

Gente, eu entendo a insatisfação, eu entendo a vontade de se manifestar, mas gritar “Fora Dilma” e fazer panelaço para a televisão me lembrou de uma cena de certo livro e filme – 1984.

(Sim, tenho plena consciência que fiz referência ao mesmo livro logo no post anterior a esse. Possivelmente foi por isso que a referência estava fresca na memória.)

Lá, o povo era incentivado a todos os dias se reunir para gritar por dois minutos para uma tela mostrando imagens de um tipo de inimigo nacional chamado Emmanuel Goldstein. Esse momento catártico chamava-se 2 Minutos de Ódio.

E o meu ponto é exatamente isso. O que eu vi ontem não foi apenas insatisfação, nem raiva, nem qualquer outra coisa. Foi ódio. Eu vi o que Orwell escreveu numa distopia, não exatamente do mesmo jeito, mas muito parecido. E não vou falar que não existe uma causa legítima, mas ódio é sempre ruim.

Manifestações são importantes, mas chamar a Dilma de “vadia” e “filha da puta” não é uma manifestação que faça qualquer sentido. É só ódio.

Ódio não leva ninguém a lugar algum. Contra a Dilma ou contra qualquer outra pessoa ou grupo. Ódio evita conversas. Ódio destrói.

Espero que entendam que meu ponto não é e nunca foi defender a Dilma. Eu diria o mesmo se os gritos fossem para o Aécio, para o Alckmin, para o Cunha, Renan Calheiros, ou qualquer outro.

Eu só espero mais de todos. E gritar para as televisões é só uma catarse coletiva, no máximo.

A tal da cena de 1984, na versão do filme, para quem quiser: