Girafas

A história é repleta de situações em que uma palavra costumava ter um sentido e, pelo uso popular, forçam-se novos significados e o original é esquecido ou cai em desuso.

Dizem que a primeira vez que o povo do Japão travou contato com uma girafa, eles chamaram o animal de “kirin”. A palavra soa familiar? Pois é, é exatamente a mesma que aquela marca de bebidas.

Só que “kirin”, originalmente, não é nem algum tipo de bebida e nem uma denominação de “girafa”. “Kirin” ou “qilin” ou “kylin” é um criatura originada na mitologia chinesa, uma espécie de dragão cuspidor de fogo que protege pessoas boas e não pode ser domado.

Se você reparar bem, o logotipo da marca Kirin leva uma versão desse animal esquisito. A imagem que abre este texto é de um Kirin. Agora me diga, ele parece uma girafa? Eu, pelo menos, não consigo ver muita semelhança (ok, talvez nos "chifrinhos"). Mas alguém viu semelhança o suficiente e chamou a girafa de “kirin”, e até hoje essa palavra denomina o animal real e o animal imaginário.

Quando eu aprendi essa história, ela me deixou um bom tempo pensando sobre as denominações que damos a outras coisas. Digo isso porque encontramos todos os dias inúmeros exemplos de coisas assim.

Todo bom falador de inglês sabe, por exemplo, que “gay”, antes de se referir a uma orientação, antigamente se referia a algo alegre. E, já que estamos neste exemplo, vale lembrar que “faggot”, hoje uma gíria pejorativa para denominar um homem gay, já foi usada como um termo pejorativo para mulheres e possivelmente deriva de “fagot”, que denomina, entre outras coisas, um “pacote” ou um conjunto de gravetos amarrados.

Em português, não usamos “faggot” de maneira corrente, mas usamos “veado” ou “viado”. Alguém poderia dizer que “veado” teria sido atribuído devido ao aspecto mais frágil do animal, mas aparentemente esse não é o caso: popularmente, fala-se que “viado” é derivado de “transviado”. Assim, “transviado” teria originado “viado”, que teria originado “veado”, que teria sido relacionado, por exemplo, a “Bambi”, derivação óbvia pelo personagem de mesmo nome, ou associações com o número 24, que representa o animal no Jogo do Bicho.

É realmente interessante, para mim, observar esse tipo de coisa. Muitos linguistas afirmam (e aqui, estou parafraseando) que o significado real de palavras é o que se faz delas, entendendo que a língua possui vida própria. Esse é um posicionamento que é denominado “descritivismo”. Assim, simplificando bastante, tentar prender palavras em significados antigos seria inútil, e tentar criar novos significados em palavras só funcionaria com a adesão popular.

Em outras palavras, no Japão girafas são kirins porque as pessoas as chamam de kirins e não de girafas, e “gay” não é mais o mesmo que “alegre”, ainda que vários livros antigos utilizem o adjetivo nesse sentido.

O dicionário Merriam-Webster da língua inglesa, declaradamente descritivista, destacou-se nos últimos anos com momentos em que posicionava-se com a visão de que o que vale é o uso corrente, não o que a tradição da língua insiste. Um primeiro caso interessante foi quando reconheceram o uso de “literally” (“literalmente”) tanto para significar “literalmente” quando “figurativamente”. Um segundo momento, mais recente, foi quando apoiaram o uso do pronome “they” (“eles/elas”) como um pronome singular de gênero neutro.

Nós estamos em um momento em que é particularmente fácil de identificar esses efeitos sociais. É fácil de ver como, nas décadas passadas, vários movimentos sociais tomaram de maneiras diferentes certas palavras e buscaram ressignificações, muitas vezes adicionando níveis de significado antes ausentes. A comunidade negra anglófona, por exemplo, em especial nos EUA, apropriou-se do termo racista “nigger" para se fortalecerem. Na mesma linha, porém de maneira diferente, o movimento feminista “Slut Walk” (em sua encarnação em português, “Marcha das Vadias”) tomou o insulto de “slut” (“vadia”) para falar de liberdade, por entenderem uma dissociação do significado que era entendido da palavra.

Inúmeras outras frentes de grupos hoje buscam ressignificar termos pejorativos ou incentivar o uso de expressões mais inclusivas ou que expliquem melhor identidades e características referentes a seus grupos. Alguns termos, aliás, nem eram exatamente novos: você já ouviu a expressão “neurotípico”? Pois ele designa o indivíduo que não apresenta distúrbios significativos no funcionamento psíquico. O termo, junto de seu oposto “neuroatípico”, tem ganhado mais notoriedade conforme algumas pessoas notam que chamar alguém que possui algum distúrbio mental ou emocional de “anormal” (em oposição a “normal”) mais atrapalha do que ajuda.

Não foram só os movimentos sociais de minorias (em números ou em direitos) que descobriram o poder das palavras. Você já reparou nos usos que a palavra “família” tem? E a expressão “família tradicional”? Em 2015, ambas expressões deram o que falar, especialmente depois da aprovação do chamado “Estatuto da Família”, que, idealizado por bastiões do conservadorismo, denominava que “família” é exclusivamente a união de homem e mulher, colocando no papel tal definição.

Por mais que o papel e a definição existam, por mais que possa efetivamente influenciar algum nível de ações jurídicas, a realidade é outra. Inúmeras manifestações demonstraram que famílias continuam existindo e continuarão existindo e se denominando como tais, mesmo que não sejam formadas a partir da união de um homem e de uma mulher. Não interessa se um grupo acha que o significado de uma palavra deve ser o que eles pregam.

Nessa luta de significados, um caso extremamente peculiar é a recente tentativa de criação do conceito de “cristofobia”, denominada por alguns indivíduos cristãos como a perseguição religiosa por suas crenças. A semelhança do termo com “homofobia” não é à toa, já que a expressão foi usada, ao menos inicialmente, em resposta a acusações de comportamento homofóbico que foram justificados com religião. Ou seja, tentaram usar significados: criaram uma palavra para ressignificar a reação de outras pessoas ao que faziam.

Não fui eu, aliás, quem disse que o intuito por trás do termo é esse, a comparação foi do vereador que tentou emplacar o "Dia do Combate à Cristofobia."

Acho que todos nós temos muito a aprender com a visão japonesa das girafas. Mesmo que você chame uma girafa de kirin, se ninguém mais a chamar de “kirin”, ela continuará sendo uma girafa. Ela só será “kirin” se pessoas o suficiente a chamarem de “kirin”.

Você pode tentar trocar “estão reclamando que eu estou falando que gays são aberrações e não quero isso” por “estou sofrendo cristofobia”, e pode até tentar aprovar uma lei para tentar se proteger de reprovação moral (e nada além disso) que continuará existindo.

Mas entenda uma coisa: mesmo que você force todas as pessoas a concordarem com você por fora, mesmo que cale as bocas de todos que discordarem, mesmo que os puna, sua girafa continuará sendo uma girafa.

A Última Humana Estava Doente

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Talvez vocês já saibam, mas eu gosto muito de escrever. E escrever me ensinou muitas coisas sobre muitas outras coisas, especialmente sobre como vemos o mundo e como agimos dentro dele.

Eu escrevo todo tipo de coisa, mas me especializo em ficção. Eu escrevo coisas longas, coisas curtas e coisas nem curtas nem longas. Cada um dos tamanhos, formatos e estilos me ensinou coisas diferentes, mas recentemente eu descobri algo estranho.

Há algum tempo eu escrevo e compartilho histórias curtas. Existem desafios muito específicos nesse formato, para que ele dê certo. Você deixa de se apegar a certas construções de frases, certas palavras, e aprende a trabalhar com um “espaço negativo” no texto. Por vezes, o que você omite é muito mais pesado do que você escreve, e ainda que não tenha dominado isso, posso dizer que estou aprendendo.

Assim, conforme fazia histórias curtas, comecei a aumentar o desafio. Fiz histórias de 7 palavras, todas com a condição de serem as últimas palavras antes da morte de um ou mais personagens, fosse por uma narração ou por um diálogo. O “e morreu” ficava sempre implícito em cada caso.

Recentemente, tentei uma outra coisa: histórias com até 5 palavras, todas com temas terríveis. Mortes e tragédias de todo tipo, todas em até 5 palavras. Entendo que fazer uma história “forte” com poucas palavras é mais difícil. O uso do que fica implícito é mais importante.

Em uma manhã de segunda-feira, pensei em mais uma dessas histórias. Ela era assim:

“O último humano estava doente.”

Eu imediatamente gostei muito dessa história. O uso de “último” já deixava implícito que havia acontecido algo para acabar com toda a humanidade, deixando apenas um. Ou que, talvez, esse humano fosse um experimento em um laboratório, supervisionado por outros seres não humanas, e fosse o último. Ou quem sabe um enredo sobrenatural, sobre vampiros e humanos comuns. Havia muitas possibilidades, e todas elas eram ruins para o humano em questão, culminando pelo fato de que ele era o último, portanto podemos imaginar que estivesse sozinho, e que estava doente, representando talvez, pelo seu fim, o fim de toda a humanidade.

Mas pensei numa possibilidade, na hora de digitar esse texto. Eu fiz um teste:

“A última humana estava doente.”

Eu me senti imediatamente mais incomodado. Eu tentei pensar por que é que isso me incomodava. A resposta foi óbvia, sem qualquer surpresa: nós estamos acostumados a certos gêneros em certas palavras.

“Pessoas” é sempre feminino. “Humano” é sempre masculino. Mesmo o “ser humano”. A língua tem essas essas coisas engraçadas, e é normal. É uma norma linguística do português.

Pensei, então, em como poderia deixar esse conto com gênero neutro. “Ser humano” até funcionaria, mas a contagem de palavras ficaria errada, passando das 5 que eu havia proposto.

Em inglês, seria fácil:

“The last human was sick.”

Mas mais do que sobre gênero de palavras, quero discutir outra coisa aqui. Não, meu texto não é sobre usarmos termos no feminino ou criar um padrão neutro mais neutro do que o masculino — ainda que pudesse abrir algumas oportunidades literárias interessantes. Também não quero falar sobre representatividade, sobre personagens (e especialmente protagonistas) mulheres em obras literárias — ainda que seja também um tópico muito interessante.

Eu estou falando de escrita em um ponto anterior a representatividade e além de língua: afinal, por que é a construção me incomodava, daquela forma? Por que é que meu “último humano” não podia ser uma “última humana”? O que essa situação significa para a escrita, em nível amplo e individual?

Eu realmente passei um tempo pensando em motivos pelos quais ele não poderia ser uma mulher e nenhum deles foi muito mais longe do que velhos clichês sobre uma teórica falta de capacidade de sobrevivência de mulheres. No fim das contas, nenhuma das possibilidades que eu pensei para o desenvolvimento do roteiro a partir dessas 5 palavrinhas fazia diferença se fosse um homem ou uma mulher.

Porém, a partir do momento que eu levantei a possibilidade de ser um personagem com gênero, consegui pensar em desenvolvimentos específicos para homens e para mulheres. Na minha ficção, pode ser que o último humano (homem) fosse o último por uma doença que havia matado todos que tinham o cromossomo Y. Pode ser que a última humana estivesse grávida e sua criança seria o salvador do universo. E estes são apenas dois exemplos rasos, baseados exclusivamente em biologia, passíveis de expansões imensas.

Existem momentos em que a linguagem e a escrita se esbarram em limitações diversas, especialmente no ponto em que o abstrato e imaginário tem que se tornar real e a expressão não cabe bem. Entendo que uma das funções da escrita pode ser, mesmo que apenas pela própria existência, apresentar a discussão.

O último humano pode ser um homem? Pode. Mas também poderia ser uma mulher. A discussão podia ir até mais longe e eu poderia omitir o artigo, forçando o gênero neutro no meu microconto e criando algo como “Último ser humano estava doente”, e tudo bem. Pessoalmente, optei por não utilizar esse formato, temendo que a inovação soasse como erro, mas se quisesse, poderia ser e isso por si só já poderia gerar uma nova discussão.

De qualquer maneira, gostei tanto de minha discussão interna, que decidi fugir do comum e aplicar gênero onde talvez muita gente nem notasse que havia.

A versão final do conto ficou “A última humana estava doente.”

O que é que você quer ser quando crescer?

 www.facebook.com/verdadestristes

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Quando eu era criança, eu sempre ouvia essa frase.

“O que você quer ser quando crescer?”

Era uma frase que carregava significados muito fortes. Essa frase diz, por exemplo, que quem ouve vai crescer, e não apenas fisicamente. Ela implica crescimento psicológico, crescimento de conhecimento. Talvez até moral. Ela implica um futuro maior e melhor que o atual.

Essa é uma frase para a qual damos pouco crédito, mas que tem um potencial incrível: implicitamente estamos dizendo para a criança que ela poderá ser o que quiser, mesmo que nós mesmos não acreditemos.

Há algum tempo eu decidi passar a perguntar isso a mim mesmo novamente.

No meu pensamento. Na hora de dormir. Na frente do espelho. Durante o banho. Enquanto estudo, trabalho, falo com as pessoas. Sempre.

Quando é que nós paramos de ouvir esse tipo de coisa? Quando é que as possibilidades se fecham para nós?

Quando é que nós desejarmos algo se torna irreal, ridículo ou censurável?

Quando é que achamos que paramos de crescer, só porque nossos corpos já cresceram?

Quando é que nos convenceram de que o que aprendemos até agora é o bastante, que a maneira que fazemos as coisas é a melhor que podemos, que a maneira como o mundo existe ao nosso redor não é nossa responsabilidade e que a maneira como nos relacionamos com os outros é a mais madura?

Não sei.

Não sei quando foi que aceitamos que é aceitável não crescer.

Lembra? Quando você era criança, o que você queria ser quando crescer já ia além de seu corpo e do tempo até o fim de uma faculdade, de onde você sairia com seu diploma de adulto.

Não. Não podemos deixar de fazer a pergunta com a maior frequência possível:

“O que você quer ser quando crescer?”

Esta é uma pergunta que nunca pode deixar de fazer sentido para nós. Existe uma tendência pouquíssimo saudável de acreditarmos que só porque já crescemos, não devemos “crescer”.

Você pode até deixar de crescer com “c” minúsculo. É biologia. Mas você nunca deve deixar de Crescer, com “C” maiúsculo. Ainda que lhe digam que isso é biologia.

Não existe idade para se ser grande, não existe idade para parar de tentar Crescer.

Você sabe quem é? O que faz? Como faz? Onde erra? O que não entende ou não sabe ou não conhece?

Quais são seus planos? O que você faz com seu tempo? Qual é o seu planejamento para crescer? O que você quer estudar? O que você precisa melhorar?

Se você parou de fazer perguntas, algo está errado. Se você acha que se conhece totalmente, algo está errado.

Eu tenho algumas metas na vida. Eu tenho muitas metas, na verdade. Mas elas são ditadas por mais ou menos três que são mais importantes que todas. Eu as exponho aqui, porque acho que são metas que valem para todos:

A primeira é que o meu “eu” atual seja sempre superior ao meu “eu” passado em algo mais do que experiência acumulada.

A segunda é que eu nunca me torne hipócrita ou desonesto, por mais que o mundo frequentemente sugira que isso é inevitável.

E a terceira é que eu não pare nunca de Crescer.

Resumindo, que a cada dia, mês, ano, eu me torne alguém digno de ter sido minha própria meta de crescimento.

Que eu possa me tornar alguém que seria minha meta, quando alguém me perguntasse “O que você quer ser quando crescer?” quando eu era criança.

Mais um ano se passou e eu aprendi muito. Eu estudei muito, li muito. Me enchi de conhecimento e experiência prática que eu posso dividir com todos. Me enchi de conhecimento e experiência subjetiva, que muitas vezes funciona apenas para mim. Eu fiz coisas grandes e pequenas. Eu me relacionei com pessoas agradáveis e desagradáveis.

Mas eu termino mais um ano satisfeito, porque eu sinto que cresci. O meu “eu” de um ano atrás seguramente poderia me ter como meta, ou ao menos algumas das coisas que conquistei.

Agora eu olho outra vez para mim — e sugiro a todos que façam o mesmo — e me pergunto: o que é que você vai ser quando crescer?

Dando o Exemplo

Existe uma frase que eu ouço desde que eu era criança:

“Você tem que dar o exemplo.”

Outras variações e permutações incluem “Devemos ensinar através do exemplo”, “Devemos dar exemplos às próximas gerações” e coisas parecidas.

Eu sempre achei esse tipo de pensamento admirável.

Quando eu era criança, eu entendia que isso deixava implícito que os adultos entendiam das coisas. Tive a sorte de ser exposto a ótimos exemplos durante a minha vida.

Depois que cresci, porém, notei que havia sido exposto também a alguns exemplos ruins. Mas é fato que, como bem diziam todas as pessoas que me falavam sobre ensinar através do exemplo, eu não notava o que era um mau exemplo quando eu só tinha o mau exemplo.

Agora, como um adulto (ou coisa parecida), tenho um discernimento maior e tenho acesso a mais exemplos que, no geral, me permitiram decidir como prefiro me comportar, como acho justo e certo.

Só que neste mundo em que discussões de toda natureza se tornam cada vez mais importantes para todos, especialmente no que toca a política, eu raramente vejo exemplos que gostaria que fossem passados às próximas gerações.

As lições básicas de convivência caem por terra simplesmente porque — aparentemente — nossas decisões adultas são importantes e acima deste tipo de coisa, coisas básicas como a “moral” e os “bons costumes” que as pessoas adoram citar.

Se você não notou o sarcasmo desta frase, deixo ele claro neste momento: nós não podemos aceitar que qualquer assunto ou decisão viole o que consideramos justo e certo. Nós não podemos esquecer o respeito, a boa convivência e, acima de tudo, o fato de que todos têm os mesmos direitos, não importa a situação.

Assim, eu fiquei pensando por muito tempo nessas coisas que aceitamos e penso que chegou a hora de lembrarmos algumas lições de nossas infâncias, porque afinal, nós que temos que dar o exemplo. E se ninguém quer agir como adulto, vamos conversar como se falássemos com crianças:

Versão Kids —Não brigue com seus amigos! / Não brigue com seus irmãos! / Não brigue na rua!

Versão para Adultos —
Quando foi a última vez que você agrediu fisicamente uma pessoa? Talvez faça bastante tempo, talvez nunca o tenha feito.

Quando foi a última vez que você insultou alguém? Agora é um pouco diferente, né?

Fomos ensinados quando crianças a não brigar com os outros, não brigar na rua, não desrespeitar… mas estamos xingando as pessoas no trânsito e agredindo em espaços públicos quem não concorda com nossa filosofia, política ou religião.

Não, isso não podemos aceitar.

Redes sociais são um mar disso. Pessoas destilando ódio contra as outras simplesmente por discordarem, e por vezes mesmo sem discordarem.

“Mas eles fizeram algo que não concordo!“ Isso não é motivo.

“Mas eu não gosto deles!“ Isso é menos motivo ainda.

“Mas eles que começaram!” “Não importa quem começou“, diziam os pais e professores em nossa infância. Para eles, isso era simplesmente uma maneira de parar a briga. Mas alguns já sabiam de algo quando diziam isso — não existe conselho mais sábio. Nós não vamos parar a briga enquanto não pararmos a briga.

Se alguém começa a briga, é nosso dever moral de finalizar a briga. Não estou falando apenas de parar a pessoa. Se alguém está insatisfeito, devemos entender o que acontece. Devemos entender porque a briga começou e é isso que devemos parar.

E devemos lembrar sempre que, mesmo que a pessoa esteja errada, ela ainda está sujeita à mesma lei e moral que você. Não podemos aceitar exceções — se há exceção, não é regra, e se aceitamos exceções para nós, temos que aceitar para os outros.

Versão Kids — Brigou? Ficou de mal? Pare com isso e faça as pazes agora mesmo!

Versão para Adultos –

Quando foi que nós passamos a achar aceitável que existam diferenças irreconciliáveis? Quando foi que “irreconciliável” passou a ser possível?

Estamos em uma época em que brigas por ideologias e teorias se tornam mais importantes do que coisas sólidas e reais.

Estamos na época em que um amigo ou parente que tenha um posicionamento político diferente do seu é motivo o suficiente para que você o bloqueie em redes sociais e se recuse a voltar a conversar. Já ouvi histórias de pessoas que deixaram de conviver na vida real.

Isso sem falar na animosidade que é criada e sustentada por uma questão que, francamente, é orgulho. Você pode achar que alguém está errado e não odiar essa pessoa, mesmo que ela ache que você está errado.

Não estou falando que as pessoas não tem opiniões nocivas ou agressivas e muito menos que devemos aceitar essas opiniões deletérias. O que estou falando é que enquanto isso for visto simplesmente como uma briga com dois lados, não vamos chegar a lugar algum. A briga ridícula de colocar lados em política ou qualquer coisa, por exemplo, não permite uma discussão saudável, porque simplesmente não queremos discutir com quem não achamos aceitável.

Para a discussão crescer, nós também temos que crescer e entender isso.

Versão Kids —Mentir é feio!

Versão para Adultos –

Quase consigo ver os cérebros pulsando com desculpas de “mentira branca”, “mentira inocente” e outras necessidades sociais para a mentira.

Obviamente, a maneira com que a sociedade é construída, bem como o que é esperado de relacionamentos não permite que falemos a um estranho “você está com um bafo horrível”, ou coisa parecida. Mas obviamente não é disso que estou falando neste texto.

Se estamos falando com adultos, vamos falar sobre mentiras adultas: você declarou tudo certo em seu imposto de renda? Você mentiu para seus clientes ou empregadores para conseguir alguma vantagem? E para cônjuges? Amigos?

Eu tenho plena consciência de quão ridículo e inocente devo soar pedindo a adultos que não mintam, mas aqui estou eu: não mintam.

É a sua mentira que dá apoio a todas as outras mentiras com que você convive. Soa exagerado, pois tome outro exagero: o mundo só mente porque nós aceitamos mentir.

Os políticos só mentem porque nós aceitamos mentir.

Seu funcionário ou colega de trabalho só mente porque nós aceitamos mentir.

Em uma sociedade transparente e verdadeira, me diga qual seria a chance de ouvirmos um “eu não sei de nada” ou “esse dinheiro não é meu”?

Nossas mentiras permitem a mentira alheia.

Parece simplista ou quase místico, mas quantas vezes não aceitamos uma informação incompleta, manipulada ou simplesmente mentirosa simplesmente porque ela concorda com o que queremos? Quantas vezes não apoiamos um mentiroso porque é um mentiroso que nos agrada?

Se queremos ser realmente verdadeiros, temos que ser verdadeiros.

A partir do momento em que você tem um motivo para defender uma ideia, especialmente quando essa ideia se opõe à de outras pessoas, você deve imediatamente comprometer-se a cumpri-la e ser um exemplo dessa ideia ou filosofia. Você não pode ter exceções, caso contrário irá se tornar hipócrita.

Há quem diga que inevitavelmente nos tornaremos hipócritas, uma vez que muito disso envolve uma certa relatividade de fatos. Mas isso não é desculpa para aumentar sua hipocrisia, e sim para reduzi-la ao máximo.

Versão Kids — Apontar é feio

Versão para Adultos –

“Olha aquela pessoa!”

“Nossa, que _______” (Complete com o adjetivo de preferência.)

Quando éramos crianças, apontar para qualquer pessoa para mostrar o que ela tinha de diferente era a principal maneira de deixarmos nossos pais constrangidos. Era a principal maneira de criar um climão na frente de qualquer adulto, conhecido ou desconhecido.

Nossos pais, morrendo de vergonha, nos diziam que era feio apontar para as pessoas, que era feio discriminar por alguma característica. Ou, se não usavam essa justificativa, apenas falavam para sermos discretos para não envergonhar a pessoa ou — pior, muito pior — envergonhá-los, criando uma situação de enfrentamento.

E então crescemos e olhamos jornais, revistas, sites na Internet e programas de televisão que dedicam a totalidade de seu conteúdo em apontar para os outros e suas características com a mesma cara de pau de qualquer criança que diz “Olha o cabelo daquele cara, mãe!”

Como eu já disse neste mesmo artigo, se aceitamos uma regra para os outros, devemos aceitar a nós mesmos. E não estou falando que se você é de alguma maneira, pode fazer piada com quem é da mesma maneira. Me refiro ao fato de que se você julgar (e condenar), você perpetua um comportamento de julgamento (e condenação).

Considere por um instante as maneiras porque as pessoas apontam e discriminam, e sem dificuldade notará que a maior parte delas pode ser simplificado pelo termo “é diferente”. Nós apontamos e discriminamos (e aqui, uso o termo “discriminar” em todos sentidos possíveis) as pessoas porque elas não são como nós, ou não são como nosso ideal de aparência, estilo ou comportamento.

Já diz a sabedoria popular que é fácil quando não é com a gente. E realmente é fácil — achar defeitos nos outros é facílimo. Mas por que devemos fazer isso? Por que raios isso é aceitável? Não aceite que as pessoas condenem, não condene e não faça parte disso. Especialmente porque se você condena o diferente, você só ajuda as pessoas que querem colocar tudo em caixinhas simples.

Condenar os outros pelo que são apenas coíbe a diferença. E a diferença é que nos dá opções para evoluirmos.

Se você em algum momento aceita a condenação alheia, se verá de mãos atadas quando chegar a sua vez de ser julgado(a) e condenado(a).

Versão Kids —Não é pra ficar fofocando!

Versão para Adultos –

Depois de aprender a não mentir e a não apontar, ainda era necessário aos nossos pais nos dizerem para não fofocarmos. As outras duas lições tem boa parte do espírito desta, mas talvez pelo fato de somos criados cercados por fofoca por pais, professores, amigos, canais de notícias e todo tipo de manifestação cultural, acabamos não notando o quão internalizado o conceito está.

Fofocar sobre a vida dos outros, se pensarmos bem, é inútil. Tanto porque reproduz inverdades e especulações, muitas vezes sobre coisas que nem são de nossa conta, quanto pelo fato de que cria uma cultura bizarra em que notícias inúteis e comportamentos inúteis são recompensados e reproduzidos.

Sabe aquela notícia que soa quase esquizofrênica, sobre um artista indo comprar pão, ou sobre como alguém foi passear com o cachorro, ou sobre como saiu vestindo alguma roupa feia? É a fofoca que alimenta esse tipo de inutilidade.

O pior, porém, é que a fofoca é quase como uma doença: Quando passamos a aceitar que a vida alheia afete a nossa nesse tipo de assunto que não leva a nenhum lugar, nós alimentamos uma corrente, permitindo que nós mesmos nos tornemos fonte de fofoca. Não só isso, nós perdemos tempo. Mas, mais importante, nós tiramos, pelo tempo que seja, o foco do que deveria ser mais importante para cada um de nós: a nossa própria vida.

 (Reprodução: O Pintinho —  http://opintinho.com.br/post/129713575755)

(Reprodução: O Pintinho — http://opintinho.com.br/post/129713575755)

Não estou sugerindo qualquer tipo de egocentrismo aqui. Quero apenas que entendam: nós temos a nossa vida. Nós podemos fazer muito dentro dela. Mas se sua vida é tão pouco interessante que você deve discutir a vida alheia para torná-la minimamente excitante, algo está muito errado.

Versão Kids — Seja um bom menino! / Seja uma boa menina!

Versão para Adultos –

Esse não tem muita diferença para os adultos, gente. É simples: se você está agredindo alguém, algo está errado. Se você coibiu alguém, algo está errado. Se você fez alguém infeliz, algo está errado.

Isso vai além de qualquer filosofia, política ou religião. Ser legal com os outros é algo que deveria ser padrão.

E agredir, coibir e fazer infeliz também vale para você. Seja bom consigo mesmo(a). Se tem uma coisa que o mundo tem demais, é infelicidade. A melhor recompensa que você pode dar para o mundo é ser feliz, desde que isso não prejudique a felicidade alheia.

O que faz uma família — #NossaFamiliaExiste

 Lilo & Stitch — "Ohana quer dizer ‘ família ’ e ‘ família ’ quer dizer ‘nunca abandonar ou esquecer"

Lilo & Stitch — "Ohana quer dizer ‘família’ e ‘família’ quer dizer ‘nunca abandonar ou esquecer"

Com essa história recente do chamado "Estatuto da Família", eu andei pensando muito.

Lembrando aos esquecidos ou desinformados: o estatuto reafirma a velha definição de família como a união entre um homem e uma mulher. E filhos, caso tenham.

Para mim, a definição é simplista e absurda, mas decidi fazer algo que gosto de fazer com frequência — eu tentei me colocar no lugar de quem pensa de modo contrário. Não é um exercício fácil.

Meu núcleo familiar é constituído pelo que as pessoas chamam de “Família Tradicional” e, pelo meu gênero e orientação sexual, provavelmente formarei uma família no mesmo molde. Mas sou da opinião de que as pessoas devem ter o máximo possível de felicidade e que ninguém tem direito de se meter na vida dos outros. Ainda assim, me esforcei e entrei de cabeça no exercício.

Logo, saí dele com algumas ideias. Tentei olhar para elas, mas de fato nenhuma delas aguentou muito tempo de questionamento. Então eu decidi expor aqui essa conversa interna, mais alguns argumentos que achei com um pouco de pesquisa.

Vale um adendo, antes de qualquer coisa: aparentemente, a mudança da lei não ocasionaria coisa alguma, legalmente falando. Como diz o advogado desta entrevista, nenhuma família seria desconsiderada e nenhuma união seria desfeita com base na lei. O problema é o preconceito que isso pode acarretar, bem como a proteção para preconceitos e um ataque à já ameaçada laicidade do Estado.

Aguentem firme que serão alguns momentos estranhos de suas vidas. Eu reuni 10 argumentos. Talvez existam outros, mas este foram os principais que consegui pensar ou encontrar por aí:

1- "A definição de família é parte da constituição/das leis e por isso devemos respeitá-la/respeitá-las."

Este argumento é usado como uma cartada contra qualquer discussão e, de fato, é uma das poucas que faz algum sentido por tempo o suficiente para entrar em discussão. Porém, é fácil nos lembrarmos que a constituição, bem como qualquer lei, é feita para o povo e pelo povo, ao menos idealmente. A partir do momento em que o povo fala que não a quer, em um Estado democrático, a conversa — e eventualmente a mudança — deve ocorrer, não?

Isso sem contar, claro, que a lei é algo antigo, que reflete outros tempos e preconceitos. Pode dar trabalho mudar? Claro que pode, mas até aí, a pessoa que utilizar este argumento, pela mesma lógica, não pode desejar a mudança de qualquer outra lei.

O advogado citado no link acima, Dr. Frederico Oliveira, lembra também que, no final das contas, a constituição não é só isso e que qualquer projeto que altere o que as pessoas definem individualmente como família e complique a convivência delas deve ser considerado anticonstitucional. Mais especificamente, ele diz que

De outra forma, em caráter vinculante e com efeito para todos, também será cabível uma ação de controle de constitucionalidade para determinar a anulação, extinguindo os efeitos da lei que nasceu com vício insanável de inconstitucionalidade, por afronta direta aos princípios da igualdade, da segurança jurídica, da liberdade, da cláusula de proibição de discriminação e da dignidade da pessoa humana, conforme já enfrentou a nossa corte suprema ao reconhecer a união homoafetiva como entidade familiar.

Puramente pelas leis, então, creio que o argumento está acabado. Vamos a outro ponto, então?

2- "Minha religião diz que…"; "Minha filosofia diz que…"

Ninguém se importa com o que sua religião diz. No máximo, pessoas da sua religião e, por vezes, nem ela. Idem para filosofias.

Não vale a pena nem entrarmos nem no caso a caso de livros sagrados ou ensinamentos religiosos, é muito mais simples: se uma pessoa não é da sua religião, ela não deve seguir os preceitos da sua religião. E você não tem direito, legalmente ou de qualquer outro modo, de utilizar sua religião contra ela de qualquer forma.

E uma coisa interessante, que as pessoas esquecem: isso também vale mesmo que você seja uma maioria religiosa. O Estado não possui religião, ainda que tenha uma inegável influência cristã.

3- "Você só diz isso porque quer defender minorias!"

Na verdade, ainda que apoie diversas causas de minorias, o Estatuto traz problemas para todos os moldes possíveis que se classificam na palavra, mesmo ignorando por um momento as famílias LGBT.

Pense bem: você não chamaria de família uma criança criada por um pai solteiro ou por uma mãe solteira? Pois aqui não há união entre homem e mulher.

"Mas a criança foi fruto da união entre um homem e uma mulher!"

Ignorando outros complicadores que contradiriam essa teoria em muitos casos, vamos ao ponto mais simples — a criança e o pai ou mãe solteiros ou viúvos deixam então de ser uma família?

E não só isso, no caso de uma mãe que tem uma criança e, por qualquer motivo, começa um relacionamento com outra pessoa — só se considera família o pai original? O pai novo também vale? Se a criança mantiver contato com os dois pais, deixou de ser uma família?

Na prática, a teoria faz muito pouco sentido.

4- "A maioria é quem manda!"

Em uma democracia de fato isso ocorre, mas… alguém sabe a opinião da maioria?

Esse argumento só valeria para se posicionar contra se a lei previsse que a minoria devesse se adequar ao que a maioria faz.

E ainda assim, a maioria seria de famílias que fogem à norma. É sério: 50,1% das configurações de família não se adequam ao molde da "família tradicional", de acordo com o IBGE.

Isso sem falar que a única votação feita no sentido de mostrar se a maioria concordava ou não com a definição do que é uma família foi a enquete realizada pela Câmara na Internet que, além de não ter representatividade de nível total da população, podia ser facilmente manipulada, permitindo votos repetidos. Ah, e ainda assim, o lado que ganhou foi o que é contra a definição tradicional.

Ou seja, se é a maioria que manda, acabou a "família tradicional".

5- "Gays não fazem casal, fazem par"; "De acordo com o dicionário…"

Estes são uma série de argumentos que considero os mais fracos, especialmente porque língua é algo extremamente mutável. Mas quebrar estes argumentos é muito mais fácil do que toda a discussão linguística.

Eu peguei meu Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, de 2009.

Eis o que ele diz sobre "casal":

casal s.m. (870) 1 povoado pequeno; lugarejo <após o bródio, os ganhões recolhiam aos seus casais> 2 pequena propriedade <tenho dois casais com oliveiras> 3 par formado por macho e fêmea 3.1 marido e mulher 3.2 qualquer par de pessoas cuja relação é amorosa e/ou sexual 4. p.ext. duas coisas iguais; par, parelha

Ou seja, no mesmo lugar temos a informação de que a palavra "par" é sinônimo de "casal", inviabilizando o primeiro argumento ridículo e a definição de que, além da definição tradicional, também aceita-se "qualquer par de pessoas cuja relação é amorosa e/ou sexual".

Mas espere: e "família"?

família s.f. (sXIII) 1 grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto (esp. o pai, a mãe e os filhos) 2 grupo de pessoas com ancestralidade comum 3 pessoas ligadas por casamento, filiação ou adoção 3.1 fig. grupo de pessoas unidas por convicções ou interesses ou provindas de um mesmo lugar <uma f. espiritual> <a f. mineira> 3.2 grupo de coisas que apresentam propriedades ou características comuns <porcelana chinesa da f. verde> (…)

Não resta dúvida — não há como usar o dicionário ou a linguagem como argumento. No máximo, o dicionário apoia a variedade de famílias.

6- "Não se pode considerar afeto como base para constituição familiar"

…peraí, este argumento acabou de sugerir que o afeto não é a base de um casamento que, afinal, é o que seria a tal base da "família tradicional"?

Eu nem havia considerado este originalmente, mas tive que escrever, porque ele aparentemente está no texto do tal Estatuto.

Esse argumento me parece o mais puro desespero, pelo simples fato de que na tentativa de ataque dele, ele torna o casamento meramente utilitário — ou seja, se o afeto não deve ser considerado base para constituição de famílias, além de tentar derrubar outras formas de núcleos familiares, o projeto basicamente apoia o casamento por interesse. Este argumento, interessantemente, contradiz até outros argumentos religiosos que falam do assunto, o que é uma surpresa.

Mas o básico é que… bem, a lei não concorda com este argumento. Não falta histórico para isso.

7- "A reprodução só pode ocorrer entre homem e mulher!"; "Gays não se reproduzem"; "Se não houver família tradicional, a humanidade vai entrar em extinção!"; "Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo!"

Este aqui tem tantos problemas que nem sei por onde começar.

Creio que o ângulo LGBT deve ser o primeiro, porque é a homofobia que é um dos pontos principais por trás deste argumento: se a sua preocupação é com a reprodução, motivo por qual quer evitar que gays constituam famílias, creio que você deveria se preocupar com casais hétero em que um dos membros, ou os dois, é infértil.

Além disso, vale lembrar que homens e mulheres, conforme envelhecem, podem se tornar inférteis. Eles perdem o status de família a partir daí também?

E o argumento da extinção… Uau, este é ignorância pura: os números em estudos apontam para uma população gay no Brasil de aproximadamente 18 milhões de pessoas. Considerando que nós ultrapassamos 200 milhões, o número não equivale nem a 10%. Convenhamos que, se por acaso esses 10% não se reproduzissem de nenhuma forma, o problema seria dos outros 90%, que ou teria se tornado infértil ou simplesmente incompetente.

Ah, e para qualquer argumento sobre Deus, relacionado a reprodução ou não, veja o item 2 deste texto.

8- "Se aceitar isso, vai ficar incentivando!"

Outra coisa que não bate é essa ideia de que a exposição a gays e a famílias não tradicionais seria um incentivo. Por essa lógica, como é que o oposto não ocorre?

Isso também não concorda com qualquer um dos outros números, seja os 50,1% da família não-tradicional ou a minoria numérica da população LGBT. Sem falar que a inconstitucionalidade também cai como uma luva, já que argumentos neste sentido podem ser facilmente classificados como preconceito.

Sem falar que, reforçando, os 50,1% das famílias "não-tradicionais" inclui MUITA gente que não entra nos tais 10% LGBT da população.

9- "Tenho que apoiar o Estatuto porque a oposição é manobra política para empurrar outras pautas!"

O Estatuto também está sendo apoiado por políticos que também tem seus próprios interesses. Desse modo, o uso deste argumento evidencia uma ou mais das seguintes opções:

a) Ignorância, de achar que apenas a oposição tem interesses políticos;

b) Ingenuidade, por pensar que quem está do "seu lado" não tem interesses alheios a este;

c) Crueldade, por apoiar um jogo político que utilize direitos humanos como arma;

d) Desonestidade, pois se você sabe que há interesses políticos de ambos os lados e decide se aliar pessoas que jogam sujo puramente por apoio político, você também joga sujo.

10- "Não concordo!"

Nesse caso, o problema é seu.

Eu também não concordo com você.

Fraldas e Homens

Em 2014 eu fiz uma viagem à África do Sul, a negócios. Mas claro, a viagem me permitiu uma série de experiências incríveis enquanto eu não estava em reuniões e convenções. Vi coisas incríveis, falei com pessoas incríveis, fui em lugares incríveis, fiz coisas incríveis e aprendi muito. Não faltaram fotos.

Mas não vou mostrar as fotos de paisagens, nem falar sobre safáris, montanhas, sobre o mar ou qualquer outra coisa. Isso é material para outros textos (mas eu fiz um aqui, algum tempo atrás, se você quiser). O que quero falar é sobre a foto acima, que tirei em um hotel na cidade de Durban.

Esta é uma foto do banheiro masculino.

Eu vi coisas incríveis na viagem, mas em um dos últimos dias de viagem, esta coisa incrivelmente comum me chamou muito a atenção. Era uma mesa de trocar fraldas no banheiro masculino.

Confesso  — eu demorei algum tempo, encarando a mesa, para entender do que se tratava, pois era algo que eu raramente via. Quando me dei conta, tirei uma foto, pensando em escrever a respeito eventualmente.

Quando voltei para São Paulo, descarreguei as fotos, escrevi um pouco sobre a viagem, mas nada sobre a mesa de troca de fraldas. Mais ou menos um ano e meio depois, a foto continuava na área de trabalho do meu computador e achei que era hora de escrever sobre isso.

E agora você sacou que este não é mesmo um post sobre a África do Sul, se bem que o título já deixava isso bem claro.

Você já viu muitas mesas para trocar fraldas em banheiros masculinos?

Eu não.

E muita gente também não. O Ashton Kutcher também não.

Uma das razões que demorei para escrever este texto, foi simplesmente porque eu procurava em outros locais. E cheguei a ver uma ou duas vezes, mas nada mais do que isso.

Hoje, alguns shoppings até contam com os chamados “Espaço Família”, substituindo os antigos fraldários com um espaço para troca de fraldas, alimentação, empréstimo de carrinhos e outros, permitindo a entrada de pais de qualquer gênero. Mas nem todos locais contam com esses benefícios e banheiros masculinos com essas mesas são consideravelmente raros.

Isso fala de várias coisas que eu acho bem problemáticas sobre os papéis sociais esperados para homens e mulheres.

Nem precisamos ir muito longe em teorias — eu enxergo que a ausência das tais mesas em banheiros masculinos, mas presença em banheiros femininos, fala de duas coisas: que o papel de cuidar de filhos é visto exclusivamente como feminino e que o papel de cuidar de filhos não é visto como masculino.

A redundância acima é proposital, porque na verdade ela não é o que parece. O que temos como consequência ao dizermos que o papel “não é visto como masculino”, mais do que “é papel da mulher”, que tira toda a responsabilidade do homem, é que o homem deixa de ser visto como adequado para tal. Torna-se, assim, socialmente estranho que qualquer homem tenha que exercer um papel que deveria ser naturalmente aceito como seu como, bem, corresponsável.

É aquele tipo de ideia que permeia a mentalidade da sociedade, mas que não funciona na prática. Pais solteiros são uma minoria, quando comparados com mães solteiras, mas eles existem e enfrentam problemas como este. E nem precisamos ficar só nos pais solteiros — basta ser pai e ter que cuidar de uma criança para enfrentar esse problema.

Acho engraçado que vejo poucas pessoas falando a respeito disso. Isso, para mim, só reforça os problemas sociais de que um homem não deveria se prestar a esse tipo de trabalho que é parte normal da paternidade. Ou, ao menos, deveria ser.

Eu não tenho filhos. Eu não planejo ter filhos em curto prazo. Mas, um dia, posso querer ter.

Até lá, espero que cada vez mais “Espaços Família” surjam, ou banheiros com a tal mesinha. Infraestrutura também é isso, pessoal. Infraestrutura faz bem.

Por que não ter contentamento?

 Tome essa beluga adorável. (Fonte:  https://en.wikipedia.org/wiki/Beluga_whale)

Tome essa beluga adorável. (Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Beluga_whale)

Nós fomos educados a aceitar muito bem o descontentamento.

Espera-se, culturalmente, que reclamemos do trânsito, do clima, da política, da segunda-feira, da ignorância do mundo, do azar, do atraso incontrolável, da dor de dente, da solidão, da companhia, da própria aparência, da aparência dos outros, da música, do silêncio e de basicamente tudo e nada. Se não temos do que reclamar ou achar ruim, nós procuramos e encontramos. Nós estamos mais prontos o descontentamento do que para o contentamento.

(É sério, biologicamente nós estamos prontos para darmos mais atenção às coisas negativas.)

Se você rir à toa, você é bobo, tolo, cabeça-de-vento.

Mais do que seriedade, somos cobrados para que tenhamos descontentamento.

Em uma época que expressões como “revolta” se tornam recorrentes no imaginário e no vocabulário popular e que cada comentário na Internet e cada conversa entre amigos tem material para dias e dias de descontentamento, parece cada vez mais difícil fazer o contrário.

Mas são realmente as coisas que nos trazem descontentamento ou nós que temos descontentamento em relação às coisas?

Parece besteira filosófica inaplicável, mas não é. Parece auto-ajuda barata, mas não é.

Sério, não é.

Quando falamos de contentamento, o que as pessoas pensam é aquela velha história de “olhar o lado bom das coisas” e isso é realmente algo válido, mas não é toda a verdade.

Eric Idle, da trupe de humor Monty Python, criou anos atrás uma das músicas mais conhecidas do grupo, que literalmente leva essas palavras — sempre olhe o lado bom da vida.

Só que a música tem uma série de outros truquinhos que se disfarçam pela letra. Mais do que apenas falar sobre o lado bom, ela tem um conselho que parece o mais bobo de todos: quando você está para baixo, assovie.

"É isso mesmo, Rodrigo? Esse é seu conselho idiota? Assoviar?"

Sim. Ou melhor, não, mas também sim.

O ponto dessa ideia de assoviar quando se está na pior é uma mudança simples de atitude que temos dificuldade em trabalhar normalmente — quando estamos na pior e não temos mais nada a fazer, ao menos pelo tempo corrente (ou, quem sabe, para sempre), nós temos duas opções: ou nós vamos deixar que isso nos afete, ou não.

(Ah, mas também vale ressaltar que do mesmo jeito que somos pessimistas biológicos, sorrir biologicamente nos torna mais felizes. Sério.)

Ressalto já que isto é uma habilidade que requer desenvolvimento, mas vamos para um exemplo simples: você está no trânsito, em seu carro. O trânsito aumenta e você nota que vai se atrasar para o trabalho. Nesse momento, você observa que não existem rotas alternativas, então o que terá que fazer é aguentar o trânsito até chegar.

Você não tem mais o que fazer, mas isso é frustrante. É irritante. O que lhe dá duas escolhas: ou você se irritará com o trânsito, ou não.

Nós estamos acostumados a achar que isso é incontrolável, mas não é.

Contentamento é um pouco como um músculo. Você deve exercitar. O desafio, que já é a recompensa, é quando você consegue ter contentamento independentemente do que acontece. É o não deixar as coisas te afetarem, É ter contentamento apesar das coisas. É não tornar seu contentamento dependente das coisas boas ou ausência de ruins.

A música de Eric Idle tem outra frase muito boa aqui (tradução minha):

"A vida é uma risada e a morte é uma piada, é verdade. Você verá que isso tudo é um show. Mantenha-os rindo enquanto você segue. Só se lembre que o último a rir é você."

Ter contentamento constantemente requer essa mudança de atitude que é contraintuitiva, mas existem diversas maneiras que se completam.

Para mim, treinar o desapego ajuda muito, porque entendo que muitas vezes o meu descontentamento é relacionado à maneira que me apego a coisas que quero que sejam de uma ou de outra maneira.

Ou seja, meu descontentamento surge a partir de minhas expectativas, e expectativas dificilmente condizem com a realidade. Ao mesmo tempo, o desapego ajuda a lembrar que — repito — nós temos o costume do descontentamento. E isso é algo de que podemos nos desapegar.

Se nós deixamos as coisas mexerem com nosso contentamento, algo está errado. Não sei quanto a vocês, mas eu prefiro estar em controle sobre meu bem-estar. Já dizia William Ernest Henley em seu poema Invictus:

"Eu sou o mestre do meu destino; / Eu sou o capitão de minha alma."

Os indianos tem um nome legal para esse contentamento. Para eles, é um preceito ético conhecido como "Santôsha".

Santosha significa… "contentamento". Sim, não tem segredo. Mas o que é mais legal é o que se diz sobre ele. DeRose escreveu sobre ele, baseando-se em textos de Pátañjali. Destaco um parágrafo que para mim é especialmente interessante:

"O contentamento e sua antítese, o descontentamento, são independentes das circunstâncias geradoras. Surgem, crescem e cingem o indivíduo apenas devido à existência do gérmen desses sentimentos no âmago da personalidade."

E algo que provavelmente todos nós já ouvimos, mas que nem sempre levamos tão à sério, é a capacidade de rirmos de nós mesmo. Nós somos ridículos, gente. Não vamos fingir que não. E ter essa realização é fantástico, porque ela nos permite ver a maneira como que usamos descontentamento, manias e vícios e os tomamos como parte de nós mesmos.

Sejam mais contentes, pessoal. Eu estou exercitando isso e só estou ganhando.

Só para finalizar, vale destacar, porém, que o contentamento que falo aqui não é nem de longe a falta de questionamento ou a aceitação de qualquer situação. Ele não é a ausência de ação ou de inquietude, revolta ou novidade. Essas coisas podem e devem coexistir com o contentamento. Cito DeRose mais uma vez, aqui:

"A observância de santôsha não deve induzir à acomodação daqueles que usam o pretexto do contentamento para não se aperfeiçoar."

Boa sorte.

Ah, e se você conhecer alguém que sofrer de depressão, faça um favor a essa pessoa e NÃO mande este texto como uma ideia de cura ou remédio. Depressão é algo a ser tratado, não é apenas descontentamento! No caso de depressão, recomendo que busque profissionais qualificados e não textos da Internet :)

Eu, Nós, Eles

Historicamente, os humanos sempre tiveram uma dificuldade muito clara, que já foi chamada de “doença do protagonista” (“protagonist disease”): nós pensamos que o mundo gira ao nosso redor e vemos aqueles que são distantes de nossa realidade como “outros”, meros secundários relegados ao cenário.

É claro que, colocando nestas palavras, todo esse comportamento soa absurdo e imediatamente pensamos que não pode ser verdade – afinal, somos melhores do que isso, não?

Na verdade não. No mundo da psicologia social, isso tem até um nome, é o Viés de Atribuição. (Se preferir, este artigo em inglês tem mais informações ainda sobre ele.)

O problema é que, tanto por motivos biológicos quanto sociais, nós temos um comportamento bem simplista. Nos é fácil atribuir culpas e comportamentos a outros simplesmente por serem “menos reais” que nós. Ou seja, é fácil generalizarmos.

Mas o problema é exatamente esse – a partir do momento em que há generalização, nosso sentimento se generaliza, bem como nossa opinião. Considere um assunto pelo qual você tenha paixão. Ultimamente, posicionamentos políticos tem sido ótimos para este experimento. Considere alguém que odeia algo que você gosta ou se opõe. Agora responda: por que essa pessoa é contra isso? Que experiências ou conhecimentos poderiam tê-la feito ter tal comportamento? Tente dar uma solução sem cair numa generalização. Isso é um verdadeiro exercício mental.

Isso funciona com diversas opiniões na vida, seja para times de futebol ou partidos políticos. Pode ser que, em algum momento, você pense que “o outro é só o outro porque é mal-intencionado”. Má intenção existe, mas ela é rara, e mesmo ela pode ter um raciocínio por trás. Não se contente em encontrar no outro um vilão.

A melhor coisa desse exercício é que, se feito corretamente, você chegará a um momento em que vai se dar conta de que o outro não é muito diferente de você. E poderá encontrar compaixão.

Seguindo essa receita, temos o potencial para transformar nossas discussões, adotando a não-agressão. Porque se a agressão (não apenas a agressão física) existe, não há diálogo. Ela apenas fortalece o conflito e nunca o finaliza. A História está aí para provar isso.

Aprendendo compaixão, ganhamos o potencial de ensinar compaixão. Lembra quando foi dito que nosso cérebro vê os diferente como “outros”? Isso é porque os próximos já são “como nós” muitas vezes. A partir do momento em que compreendemos que não há uma maldade sistêmica, nem uma grande diferença, só poderemos ter compaixão. E não haverão mais “outros”, mas apenas “nós”.

Conteúdo extra, não de todo relacionado, mas ainda assim relevante, que em parte inspirou este texto: